quinta-feira, 3 de março de 2011

Coisas de Florbela


A maior Tortura Na vida, para mim, não há deleite. 

Ando a chorar convulsa noite e dia ... 
E não tenho uma sombra fugidia 
Onde poise a cabeça, onde me deite ! 
 E nem flor de lilás tenho que enfeite 
A minha atroz, imensa nostalgia ! ... 
A minha pobre Mãe tão branca e fria 
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite ! 
 Poeta, eu sou um cardo desprezado, 
 A urze que se pisa sob os pés. 
Sou, como tu, um riso desgraçado ! 
Mas a minha tortura inda é maior: 
Não ser poeta assim como tu és 
Para gritar num verso a minha Dor !

 ... Florbela Espanca Fanatismo*** 
 Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida 
Meus olhos andam cegos de te ver ! 
Não és sequer a razão do meu viver, 
Pois que tu és já toda a minha vida ! 
Não vejo nada assim enlouquecida 
Passo no mundo, meu Amor, a ler 
No misterioso livro do teu ser 
A mesma história tantas vezes lida ! 
 "Tudo no mundo é frágil, tudo passa" 
Quando me dizem isto, toda a graça 
 Duma boca divina fala em mim ! 
 E, olhos postos em ti, digo de rastros : "
Ah ! Podem voar mundos, morrer astros, 
 Que tu és como Deus : 
Princípio e Fim" 
Essa poesia, pode ser encontrada em forma de canção na voz ímpar 
do iluminado Raimundo Fagner 

Florbela Espanca Poetas*** 
 Ai as almas dos poetas 
Não as entende ninguém; 
São almas de violetas 
Que são poetas também. 
 Andam perdidas na vida, 
Como as estrelas no ar; 
Sentem o vento gemer 
Ouvem as rosas chorar! 
 Só quem embala no peito 
Dores amargas e secretas 
É que em noites de luar 
Pode entender os poetas 
 E eu que arrasto amarguras 
Que nunca arrastou ninguém 
Tenho alma pra sentir 
A dos poetas também! 
Florbela Espanca Ser Poeta*** 

 Ser poeta é ser mais alto, é ser maior 
Do que os homens! Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja Rei do 
Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor 
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor! 
É ter fome, é ter sede de Infinito! 
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... 
É condensar o mundo num só grito! 
E é amar-te, assim, perdidamente... 
É seres alma, e sangue, e vida em mim 
 E dizê-lo cantando a toda a gente! 
Florbela Espanca 

 Ao vento 
 O vento passa a rir, torna a passar, 
Em gargalhadas ásperas de demente; 
E esta minh'alma trágica e doente 
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar! 
 Vento de voz tristonha, voz plangente, 
Vento que ris de mim, sempre a troçar, 
Vento que ris do mundo e do amar, 
A tua voz tortura toda a gente!... 
 Vale-te mais chorar, meu pobre amigo! 
Desabafa essa dor a sós comigo, 
E não rias assim!... 
Ó vento, chora! 
 Que eu bem conheço, amigo, esse fadário 
Do nosso peito ser como um Calvário, 
E a gente andar a rir pela vida fora!!... 
Florbela Espanca! 

 Súplica 
 Olha pra mim, amor, olha pra mim; 
Meus olhos andam doidos por te olhar! 
Cega-me com o brilho de teus olhos 
Que cega ando eu há muito por te amar. 
O meu colo é arrninho imaculado 
Duma brancura casta que entontece; 
Tua linda cabeça loira e bela 
Deita em meu colo, deita e adormece! 
Tenho um manto real de negras trevas 
Feito de fios brilhantes d`astros belos 
Pisa o manto real de negras trevas 
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos! 
Os meus braços são brancos como o linho 
Quando os cerro de leve, docemente... 
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te 
Nessa cadeia assim etemamente! ... 

Vem para mim,amor...
Ai não desprezes 
A minha adoração de escrava louca! 
Só te peço que deixes exalar 
Meu último suspiro na tua boca!... 
Florbela Espanca 

 Escreve-me! 
 Escreve-me ... que seja só 
Uma palavra, uma palavra apenas, 
Suave como o teu nome e casta 
Como um perfume casto De açucenas! 
 Escreve-me!
Há tanto,há tanto tempo 
Que te não vejo, amor!
Meu coração Morreu já,e no mundo aos pobres mortos 
Ninguém nega uma frase d'oração! 
 "Amo-te!"Cinco letras pequeninas, 
Folhas leves e tenras de boninas, 
Um poema d'amor e felicidade! 
 Não queres mandar-me esta palavra apenas? 
Olha, manda então... brandas...serenas... 
Cinco pétalas roxas de saudade... 
Florbela Espanca Lágrimas ocultas*** 

 Se me ponho a cismar em outras eras 
Em que ri e cantei, em que era q'rida, 
Parece-me que foi noutras esferas, 
Parece-me que foi numa outra vida... 
 E a minha triste boca dolorida 
Que dantes tinha o rir das Primaveras, 
Esbate as linhas graves e severas 
E cai num abandono de esquecida! 
 E fico, pensativa, olhando o vago... 
Toma a brandura plácida dum lago 
O meu rosto de monja de marfim... 
 E as lágrimas que choro, branca e calma, 
Ninguém as vê brotar dentro da alma! 
Ninguém as vê cair dentro de mim! 
Florbela Espanca 

 Eu*** 
Eu sou a que no mundo anda perdida, 
Eu sou a que na vida não tem norte, 
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte 
Sou a crucificada ... a dolorida ... 
 Sombra de névoa tênue e esvaecida, 
E que o destino amargo, triste e forte, 
Impele brutalmente para a morte! 
Alma de luto sempre incompreendida!... 
 Sou aquela que passa e ninguém vê... 
Sou a que chamam triste sem o ser... 
Sou a que chora sem saber porquê... 
 Sou talvez a visão que Alguém sonhou, 
Alguém que veio ao mundo pra me ver, 
E que nunca na vida me encontrou! 
Florbela Espanca Amar! 

 Eu quero amar, amar perdidamente! 
Amar só por amar: Aqui...além... 
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente Amar!
Amar!E não amar ninguém! Recordar?Esquecer?
Indiferente!... Prender ou desprender?
É mal?É bem? 
Quem disser que se pode amar alguém 
Durante a vida inteira é porque mente! 
 Há uma Primavera em cada vida: 
É preciso cantá-la assim florida, 
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! 
 E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada 
Que seja a minha noite uma alvorada, 
Que me saiba perder... pra me encontrar... 
Florbela Espanca 

 Alma perdida 
 Toda esta noite o rouxinol chorou, 
Gemeu, rezou, gritou perdidamente! 
Alma de rouxinol, alma da gente, 
Tu és, talvez, alguém que se finou! 
 Tu és, talvez, um sonho que passou, 

Que se fundiu na Dor, suavemente... 
Talvez sejas a alma, a alma doente 
Dalguém que quis amar e nunca amou! 
Toda a noite choraste... e eu chorei 
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei 
Que ninguém é mais triste do que nós! 
 Contaste tanta coisa à noite calma, 
Que eu pensei que tu eras a minh'alma 
Que chorasse perdida em tua voz!... 
Florbela Espanca 

 A vida 
 É vão o amor, o ódio, ou o desdém; 
Inútil o desejo e o sentimento... 
Lançar um grande amor aos pés de alguém 
O mesmo é que lançar flores ao vento! 
 Todos somos no mundo" Pedro Sem", 
Uma alegria é feita dum tormento, 
Um riso é sempre o eco dum lamento, S
abe-se lá um beijo de onde vem! 
 A mais nobre ilusão morre... desfaz-se... 
Uma saudade morta em nós renasce 
Que no mesmo momento é já perdida... 
 Amar-te a vida inteira eu não podia. 
A gente esquece sempre o bem de um dia. 
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!
 Florbela Espanca 

 Uma de minhas favoritas ***

Um comentário:

  1. Querida esta tudo muito bonito cheio de sensibilidade. Estou feliz por estar aqui. Volto para ver tudo com mais calma. Boa noite um beijo no coração

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