“Quando os lábios e a pele recordam, quando as mãos sentem que ainda te tocam... Por que, em sendo eu tão feliz me declaro insatisfeito, vazio incompleto, infeliz?
Tantos amores vivi tão completamente!
A exaurir, a combustar.
Pensei tê-los perdido para sempre mas eles sobrevivem em mim permanecem em algum lugar de meu legado encantamento.
Visitei corpos clandestinos que amava no momento mas a juventude urgia exasperada e insegura. “como possuído ainda/ do prazer ilegal do proibido amor/ que acaba de ser seu”.
Que intensidade fugaz! Que rasos compromissos! Queria-os, cultivava-os enquanto se esvaiam e ressurgiam com renovado assombro, ímpeto, membros de uma volúvel confraria de divindades helênicas.
“E bebi o vinho forte, como só os audazes bebem o prazer”.
Corpos passageiros, verdadeiros jungindo-se numa plenitude inalcançável e imperfeita feita de sensações sempiternas.
Maduro, bebo sempre desse vinho que me rejuvenesce.
Reencontro em ti, tão jovem, rijo e forte como se renascesse em tua óssea formatura e me libertaras de mim.
“Oh deuses! que não nos vejam esses enlutados, esses moralistas o eco desses estéreis amores/ que eles repudiam.”
O novo e o velho se recompõem em mim oportuna metamorfose para reviver aquele amor. Entrego-me a esse amor com a certeza da fatuidade mas ele é real e intenso e quem sabe inconseqüente pois algo sabes de remédios; tentativas de envolver a dor/
“A ti recorro oh Arte da Poesia, na Imaginação e na Palavra.”
Perdido para sempre num sentimento impossível com a sensação absurda de uma carne quase intacta: “recorda de repente estranhamente a um efebo que – com certa rudeza - ao amor por vez primeira renda seu corpo intocado.”
Konstantínos Kávafiz
Jura
A cada pouco jura começar vida nova
Mas quando a noite vem com seus conselhos
Seus compromissos suas promessas.
Mas quando a noite vem com sua força (o corpo quer e pede), ele de novo sai
Perdido atrás da mesma alegria fatal.
Konstantínos Kaváfis
Dias de 1903
Nunca mais os achei -
Tão depressa esquecidos
Aqueles olhos poéticos, rosto pálido...
na rua ao anoitecer...
Nunca mais os achei - conquistados por sorte
Com que facilidade abandonei-os
Com que ansiedade eu os quis depois
Os olhos poéticos o rosto pálido
Aqueles lábios que não mais achei.
Konstantínos Kaváfis
ÍTACA
Quando você partir,em direção a Ítaca,
que sua jornada seja longa repleta de aventuras,plena de conhecimento.
Não tema Laestrigones e Ciclopes nem o furioso Poseidom; você não irá encontrá-los durante o caminho,se o pensamento estiver elevado,se a emoção jamais abandonar seu corpo e seu espiríto. Laestrigones e Ciclopes,e o furioso Poseidon não estarão em seu caminho se você não carregá-los em sua alma, se sua alma não os colocar diante de seus passos.
Espero que sua estrada seja longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
que o prazer de ver os primeiros portos traga uma alegria nunca vista.
Procure visitar os empórios da Fenícia recolha o que há de melhor.
Vá às cidades do egito, aprenda com um povo que tem tanto a ensinar.
Não perca Ítaca de vista, pois chegar lá é o seu destino.
Mas não apresse os seus passos;
é melhor que a jornada demore muitos anos e seu barco só ancore na ilha quando você já esiver enriquecido com o que conheceu no caminho.
Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas.
Ítaca já lhe deu uma bela viagem;
sem Ítaca,você jamais teria partido.
Ela já lhe deu tudo,e nada mais pode lhe dar.
Se,no final,você achar que Ítaca é pobre, não pense que ela o enganou.
Por que você tornou-se um sábio,viveu uma vida intensa, e este é o significado de Ítaca. Konstantinos Kaváfis
A cidade
Tu dizias:
“Irei para outras terras, outros mares em busca de cidade melhor do que esta.
Aqui, todos os meus esforços são natimortos.
Meu coração – amortalhado – aqui se enterrou.
Por quanto tempo minha alma permanecerá no abandono?
Para onde meus olhos se voltem, até onde a vista alcança, vejo os negros escombros de minha vida, que vivi, estraguei, destruí ...
Konstantinos Kaváfis
Amantes, 1908.
Tomaram do prazer proibido agora, saem da cama, vestem-se depressa, sem falar.
Separam-se, deixam a casa às escondidas
E na rua andam inquietos
Temendo que algo em seus corpos
Traia o prazer ao qual se abandonaram.
E tudo isso, para o poeta, que milagre!
Amanhã, depois de manhã, daqui a anos, ele escreverá
Os intensos poemas...
Konstantinos Kaváfis
O deus abandona Antônio Se de repente na hora sombria ouvires passar Músicas inefáveis e vozes de trupe invisível, Não chores o destino que te cabe
Nem tuas obras frustradas, nem teus projetos agora ilusórios.
Como se há muito soubesses, tem coragem e Saída esta Alexandria que te abandona. Principalmente não cometas o erro de acreditar
Que teus ouvidos te enganaram
Konstantinos Kaváfis
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