quinta-feira, 3 de março de 2011

Coisas de Kávafiz

“Quando os lábios e a pele recordam, quando as mãos sentem que ainda te tocam... 
Por que, em sendo eu tão feliz me declaro insatisfeito, vazio incompleto, infeliz? 
Tantos amores vivi tão completamente! 
A exaurir, a combustar. 
Pensei tê-los perdido para sempre mas eles sobrevivem em mim permanecem em algum lugar de meu legado encantamento. 
Visitei corpos clandestinos que amava no momento mas a juventude urgia exasperada e insegura. “como possuído ainda/ do prazer ilegal do proibido amor/ que acaba de ser seu”. 
Que intensidade fugaz! Que rasos compromissos! Queria-os, cultivava-os enquanto se esvaiam e ressurgiam com renovado assombro, ímpeto, membros de uma volúvel confraria de divindades helênicas. 
“E bebi o vinho forte, como só os audazes bebem o prazer”. 
Corpos passageiros, verdadeiros jungindo-se numa plenitude inalcançável e imperfeita feita de sensações sempiternas. 
Maduro, bebo sempre desse vinho que me rejuvenesce. 
Reencontro em ti, tão jovem, rijo e forte como se renascesse em tua óssea formatura e me libertaras de mim. 
“Oh deuses! que não nos vejam esses enlutados, esses moralistas o eco desses estéreis amores/ que eles repudiam.” 
O novo e o velho se recompõem em mim oportuna metamorfose para reviver aquele amor. Entrego-me a esse amor com a certeza da fatuidade mas ele é real e intenso e quem sabe inconseqüente pois algo sabes de remédios; tentativas de envolver a dor/ 
“A ti recorro oh Arte da Poesia, na Imaginação e na Palavra.” 
Perdido para sempre num sentimento impossível com a sensação absurda de uma carne quase intacta: “recorda de repente estranhamente a um efebo que – com certa rudeza - ao amor por vez primeira renda seu corpo intocado.” 
Konstantínos Kávafiz 


Jura 
A cada pouco jura começar vida nova 
Mas quando a noite vem com seus conselhos 
Seus compromissos suas promessas. 
Mas quando a noite vem com sua força (o corpo quer e pede), ele de novo sai 
Perdido atrás da mesma alegria fatal. 
Konstantínos Kaváfis 


Dias de 1903 
Nunca mais os achei - 
Tão depressa esquecidos 
Aqueles olhos poéticos, rosto pálido... 
na rua ao anoitecer... 
Nunca mais os achei - conquistados por sorte 
Com que facilidade abandonei-os 
Com que ansiedade eu os quis depois 
Os olhos poéticos o rosto pálido 
Aqueles lábios que não mais achei. 
Konstantínos Kaváfis 


 ÍTACA 
Quando você partir,em direção a Ítaca, 
que sua jornada seja longa repleta de aventuras,plena de conhecimento. 
Não tema Laestrigones e Ciclopes nem o furioso Poseidom; você não irá encontrá-los durante o caminho,se o pensamento estiver elevado,se a emoção jamais abandonar seu corpo e seu espiríto. Laestrigones e Ciclopes,e o furioso Poseidon não estarão em seu caminho se você não carregá-los em sua alma, se sua alma não os colocar diante de seus passos. 
Espero que sua estrada seja longa. 
Que sejam muitas as manhãs de verão, 
que o prazer de ver os primeiros portos traga uma alegria nunca vista. 
Procure visitar os empórios da Fenícia recolha o que há de melhor. 
Vá às cidades do egito, aprenda com um povo que tem tanto a ensinar. 
Não perca Ítaca de vista, pois chegar lá é o seu destino. 
Mas não apresse os seus passos; 
é melhor que a jornada demore muitos anos e seu barco só ancore na ilha quando você já esiver enriquecido com o que conheceu no caminho. 
Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas. 
Ítaca já lhe deu uma bela viagem; 
sem Ítaca,você jamais teria partido. 
Ela já lhe deu tudo,e nada mais pode lhe dar. 
Se,no final,você achar que Ítaca é pobre, não pense que ela o enganou. 
Por que você tornou-se um sábio,viveu uma vida intensa, e este é o significado de Ítaca. Konstantinos Kaváfis 


 A cidade 
Tu dizias: 
“Irei para outras terras, outros mares em busca de cidade melhor do que esta. 
Aqui, todos os meus esforços são natimortos. 
Meu coração – amortalhado – aqui se enterrou. 
Por quanto tempo minha alma permanecerá no abandono? 
Para onde meus olhos se voltem, até onde a vista alcança, vejo os negros escombros de minha vida, que vivi, estraguei, destruí ... 
Konstantinos Kaváfis 


 Amantes, 1908. 
 Tomaram do prazer proibido agora, saem da cama, vestem-se depressa, sem falar. 
Separam-se, deixam a casa às escondidas 
E na rua andam inquietos 
Temendo que algo em seus corpos 
Traia o prazer ao qual se abandonaram. 
E tudo isso, para o poeta, que milagre! 
Amanhã, depois de manhã, daqui a anos, ele escreverá 
Os intensos poemas... 
Konstantinos Kaváfis 


O deus abandona Antônio Se de repente na hora sombria ouvires passar Músicas inefáveis e vozes de trupe invisível, Não chores o destino que te cabe 
Nem tuas obras frustradas, nem teus projetos agora ilusórios. 
Como se há muito soubesses, tem coragem e Saída esta Alexandria que te abandona. Principalmente não cometas o erro de acreditar 
Que teus ouvidos te enganaram 
Konstantinos Kaváfis

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