quinta-feira, 14 de abril de 2011

A PISTA DE DANÇA


Você coloca esse comprimido na ponta da minha língua e me diz para não engolir. Eu obedeço porque existe em mim a necessidade do mistério. Me joga na pista e vamos todos dançar já que a madrugada avança e os sonhos são agora. Eu estou fora do contexto, é assim que compreendo essa noite. 

Eu só estou aqui porque você me intimou, porque eu queria te ver e também porque queria revisitar essa sensação antiga de fazer parte desse cenário de pista cheia, música alta, essa gente animada e sem problemas, os garçons de bunda de fora e o banheiro pegando fogo. Faz muito tempo que eu não saio para dançar. 

As luzes acesas. O foco compartilhado. Por passar tanto tempo tão – ria - atado, tão protegido do que acontece aqui, que fiquei mais fragilizado, arrisco. Por não encontrar nada além da poeira e da confusão da vitrine de sempre que raramente muda a tendência. De maneira que essa é uma noite específica. Onde eu estou disponível para a madrugada e vice-versa. Retribuo o sorriso, o abraço. Você, que eu tanto quero bem, porque toda vez que me olhas nos olhos, me oferece tantas possibilidades. Então eu aceito a noite, a madrugada, todas essas pessoas pulando e aceito também nós dois, sabe-se lá os efeitos desse comprimido que demora tanto para dissolver. Enquanto isso, a gente canta aquela canção e tenta se enxergar, apesar da fumaça e tenta se reconhecer, apesar da escuridão. Enquanto isso a gente bebe e aqui a bebida é liberada, você tão bem me informou. Que mal existe em dançar e beber até que o dia amanheça, somos todos jovens e precisamos dessa sensação trampolim de que a vida é o percurso e também o salto e também o mergulho.

A gente nunca sabe quem vai aparecer depois que o amor fecha as portas. Eu adoro essas metáforas clássicas. Sério. São imagens tão poderosas. A gente nunca sabe quem é o próximo. Ou se haverá o próximo para quem o coração vai voltar a atenção. Quando eu te vi pela primeira vez, eu soube, eu senti, eu percebi. Eis a minha nova poesia, meu ballon rouge, minha novidade para desvendar. 

Só depois é que houve o passado. Que nos trouxe aqui. Agora. O som tão alto e você me diz algumas palavras. Eu não compreendo. É tão difícil tentar compreender o que você me diz. Vamos sair daqui e procurar um lugar mais calmo. Eu quero saber o que você precisa me dizer.
Então eu ouvi o barulho. Que ninguém ouviu porque não reagiram. Até que ele me disse que nós dois juntos era uma ideia que no plano de tecer os sonhos parecia tão exata e promissora. Eu já nos imaginei juntos, ele me dizia com os olhos brilhando. Tanta fumaça, tantas intenções ao redor. Na prática, na vida real, tudo muda porque somos claramente tão diferentes e é tão simples perceber o que nos afasta e o que nos determina. Você me conhece tão bem. Intimidade que conquistamos depois de sei lá quanto tempo. Mas...

- Cale a boca, por favor. Eu falo de sonhos e a gente já não sonha mais. Eu falo de desejos. Dos menores. De ter alguém para amar. De ser amado por alguém. Fazer planos. Trocar. Preparar um jantar, comprar um cachorro, dividir a vida, pagar as contas. Eu sonho pessoas, cara. Faço parte desse grupo que ainda acredita na delicadeza e no amor. Que não precisa se justificar com a prática ou a teoria porque no fim das contas, tudo é prática. Você é esse campo minado que eu me obriguei atravessar. 

Determinado. Tudo é tão veloz e esse lugar e essas pessoas que dançam perdidas em busca de suas razões, em busca de suas aventuras, sejam elas quais forem, todos eles compreendem o desejo do acerto. Talvez um dia eu enlouqueça e me transforme sem volta em algum personagem que fala insistentemente sobre um assunto que ninguém mais compreende. Talvez a minha loucura seja sonhar quando não sonham mais. A minha linha torta, bêbada, de camisa molhada de suor, esse comprimido que ninguém sabe e ninguém viu.
Egídio La Pasta Jr


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