Olhava pra parede da minha frente, em frente à minha casa. Vidas estão nela. Amores, esperanças e desgraças estão ocorrendo, na minha frente, em frente à minha casa. A parede fala.
Proletários de todo o mundo, uni-vos. (último aviso)
Estava escrito no meu 2º passo, por algum socialista louco, pirado e precavido. As pessoas passam e não percebem a urgência do recado, que ultimamente estava avisado. Avisam-nos desde 1848, não acredito que agora vá adiantar.
Por que o Natal é na neve, se Jesus nasceu num deserto? E Papai Noel é pai de quem?
No meu 5º passo me deparei com as maiores das perguntas, que são aquelas que não sei responder, aquelas perguntas que dão vontade de fazer pra todo mundo que passa, mas as pessoas não dão atenção à parede falante.
Napoleão não era francês, Che Guevara não era cubano, Stalin não era russo e Jesus não era cristão.
Oito passos depois do início da minha caminhada pude ver que minha professora era mentirosa.
Por que os EUA podem produzir bombas atômicas, e o Irã não pode? O que os japoneses têm a dizer?
Quais? Os que morreram? Ou os cancerígenos?
O que é pior: mudar de nome ou mudar de alma?
No meu 11º passo lembrei-me de Hokusai, que mudou de nome sessenta vezes, e morreu depois de ter dado vida ao inanimado, com uma das melhores almas que o Japão já sentiu.
Bem-aventurados os bêbados, porque verão Deus duas vezes.
No meu 15º passo, perguntei-me: e os bêbados ateus?
Depois de tanto caminhar por paredes vivas e pessoas mortas, entrei num táxi, amarelo, como todos aqui de Nova York. O taxista chorava e lamentava em um leve sotaque caribenho, que sua mulher havia o abandonado.
- Não é culpa dela. Ela nunca gozou – Disse-me.
Fiquei sem palavras, a única mulher com quem conversei sobre sexo foi minha mãe, quando me deu de presente uma caixa de preservativos.
- Vai pra onde, caro amigo? – Perguntou-me soluçando.
- Pra casa. Ali, depois dessa grande parede.
Não conseguia voltar andando, eram muitas dúvidas e verdades que preferia evitar naquela parede. Porém, mais tristeza tinha encontrado dentro do táxi, dentro daquele homem berrante. Tristeza tinha encontrado naquelas pessoas andantes, mortas-vivas ao lado da grande parede.
Uma namorada sem tetas é, mais que namorada, um amigo.
Foi a última frase que li na parede ainda dentro do táxi, valeu a pena, arrancou um leve sorriso no rosto do taxista, que não parava de berrar.
Por Felipe Liberal*
*Felipe Liberal é colunista do Perspectiva Política

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