Com muito empenho, consegui o que queria, bem cedo me perdi de mim.
Mas como dificilmente estamos satisfeitos com algo, hoje quero me reencontrar.
Venho em uma busca alucinada,
Já mudei de cidade, de estado até de nome.
Já sai correndo pelas ruas, já me atirei dentro e fora de carros.
Já queimei os bigodes e os neurônios
Já cortei pessoas, mãos e cabelo.
E sigo me buscando.
Mergulho constantemente em paixões e livros para ver se me encontro no fundo deles.
Já tentei me encontrar na confusão das palavras de Clarice.
Mas Clarice é um convite ao perder-se.
Estou na contra mão.
Na dor da voz da Lady Day
Nos personagens de Sartre, me reconheço, me vejo, quase me encontro.
Depois sigo buscando.
Durmo demasiado na esperança de uma revelação sobre meu paradeiro em sonhos.
Até acordo lúcida, me sentindo. Porém depois dos dentes escovados, Cadê eu?
Já tive um filho tentando me encontrar
E não tive outros por desconhecer meu paradeiro.
Tem dias que é desespero total
Perco a hora, pinto cabelos, me procuro em montanhas doces.
O máximo que consigo: é não me reconhecer no espelho.
Por alguns instantes me encontro em uma xícara de café quente forte e puro.
Com certa freqüência perco-me em fundo de copos
Na ressaca e na depressão encontro o eu indesejável o eu terrível.
Nos alucinógenos me perdia ainda mais, julgando me achar.
Hoje, na lucidez sei que tenho que seguir tentando
Dizem que me encontraria com mais facilidade em um divã.
Vou mais além, acho que realmente me encontrarei em um corredor psiquiátrico...
Mas sigo tentando...
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