Sartre faleceu em 1980; Beauvoir em 1986. Nenhum dos dois
destruiu suas cartas nem seus diários e ambos deixaram claro o
propósito de tê-los publicados postumamente. O grosso da
correspondência que mantiveram um com o outro foi publicado
alguns anos depois que morreram. Os leitores levaram um choque.
Esses dois defensores da sinceridade mentiam a três por dois para um
grupo de moças emocionalmente instáveis. (Sartre chamava essas
mentiras de “lorotinhas”, “meias-verdades” e “mentiras completas”.)
E lá estava Beauvoir, que a vida inteira sempre negou ter tido algum
caso com uma mulher, contando a Sartre sobre suas prazerosas noites
de amor com jovens mulheres! Perguntávamo-nos como Sartre podia
escrever de modo tão frio e clínico sobre como deflorou a última
namorada. E por que ambos depreciavam tanto as moças com quem
iam para a cama. Ao mesmo tempo, eram mais vulneráveis do que
tínhamos imaginado. E sua paixão por compartilhar os mínimos
detalhes de seu dia-a-dia — o cheiro da chuva, a cor dos faróis no
escuro, uma conversa divertida que entreouviram num trem — era
francamente cativante.
Trecho do livro Tetê-à-Tetê de Hazel Rowley
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