O Caminho da Mão Esquerda -Veículo de iluminação em uma era de escuridão
Contudo, as causas essencialmente espirituais
que formam as condições desfavoráveis que dominam a nossa época têm
sido universalmente reconhecidas por aqueles que se livraram das amarras
da mentalidade egocêntrica para experimentar padrões mais profundos do
Ser que reside sob os véus da ilusão.
Na metafísica hindu, sabe-se que vivemos agora na alvorada do Kali Yuga,
termo que pode ser traduzido como “Éon da Escuridão”, “Idade das
Trevas” ou, ainda, “Era do Infortúnio”. De acordo com a tradição védica
dos yugas, o desenvolvimento da humanidade transita frequentemente entre
ascensões e quedas através de um ciclo de quatro eras eternamente
recorrentes, começando com Krita, ou Satya Yuga, a Idade de Ouro da
Verdade. Tendo passado as eras subsequentes, Treta e Dvapara Yugas,
períodos de deterioração espiritual progressiva, saindo do éon primevo de
pureza e perfeição, nós entramos agora no estágio final da dissolução,
encarnado no Kali Yuga. Quando o Kali Yuga chegar ao seu fim, o ciclo
cósmico irá recomeçar com uma nova Era de Ouro reavivada, surgindo das
cinzas de nossa atual Idade das Trevas. Esses ciclos também correspondem
aos estados internos de transformação do ser do Iniciado em seu caminho
para a libertação no qual um “Kali Yuga da alma” deve ser vencido antes
que a Era de Ouro do iniciado seja revelada. Até então, contudo, os
sintomas tradicionalmente descritos do Kali Yuga, que podemos observar
ao nosso redor diariamente (falência espiritual, hedonismo estúpido,
colapso de toda estrutura social, ganância e materialismo, egoísmo
irrestrito, aflições e enfermidades de todo tipo), irão prevalecer. (Ideias de
Idades do Mundo terminais são representadas no Ragnarok nórdico, no
Quinto Sol asteca, no Apocalipse cristão e no gnóstico Éon de Tífon).
É da natureza do Kali Yuga deter a maioria dos seres humanos de sua
liberação espiritual devido à gravidade da inércia, apatia e preguiça
(conhecidos como tapas, em sânscrito), que subjuga esta era. Apesar desse
prognóstico aparentemente sombrio, há uma saída desse infortúnio para
aqueles que têm vontade e força para despertar da letargia excessiva, dentro
e fora deles mesmos, para agir. Mesmo na Era da Escuridão, alguns têm
uma disposição heroica para romper com as ilusões em que estão atados no
espaço-tempo e presos em seu ego em condições específicas do zeitgeist3
ao seu redor. Esses heroicos “nadadores” que nadam contra a corrente
podem despertar para uma consciência expandida, atemporal e una, não
dependendo mais do ciclo dos yugas. Dizem que um ser assim é chamado
de jivanmurta, ou liberado nesta vida, aquele que transcendeu a perspectiva
dualista, temporal e medíocre da vida e os medos do ego para atingir o
êxtase do estado de consciência transpessoal e divino, antes obscurecido
pelo ruído branco da absorção individual.
Zeena Schreck
Tradução: Adriano Camargo Monteiro; Aristerá
Para Revista Sitra Ahra

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