domingo, 3 de maio de 2020

Icchasuddhi - Purificação da Vontade

Sobre meus estudos do Tantra

Tantra: "O Tantra oferece ao indivíduo a chave que pode abrir a sua consciência independentemente de sua cultura ou religião".


Hoje quero falar sobre os tratados de dhyana-yoga que têm o hábito de unir, aos exercícios de meditação e concentração algumas regras de vida, que, nem sempre se encaixam ao tipo de "moral ocidental" aceito. 
Seu verdadeiro objetivo é remover tudo o que pode distrair, perturbar ou agitar a alma, tornando-se um obstáculo ao sadhana

Sadhana: É um autoenriquecimento. Não é algo que é feito para agradar a alguém ou para ganhar alguma coisa. Sadhana é um processo pessoal no qual você acessa o seu melhor. “ Yogi Bhajan.

Esse estagio não pode ser alcançado se a alma não estiver calma e unificada, livre de problemas. 

Uma das disciplina chamada V, me chamou muito a atenção. 
A "purificação da vontade" a vontade pura é uma vontade nua, capaz de fazer suas próprias determinações, além de qualquer antítese de valores, porque possui um caráter supra-individual. Uma ética da anomia, da destruição e superação dos grilhões (que caracterizam o profano, o homem inferior, o pasu). 
Um simbolismo duplo está associado à tarefa em questão. O primeiro é da "nudez" que a mitologia ilustra com o deus Heruka, o "nu", o "que não se veste" (que às vezes também é um atributo de Shiva). O outro é da Virgem (kumari), o Sakti como Urna, "aquela que não é a esposa de ninguém". 
Já foi dito: "O poder da vontade é Urna, a Virgem", icchasaktir Urna Kumari. O vira deve possuir a Virgem; ele deve arrancar as roupas dela e possui-la nua em seu trono, o que significa que ele deve se apropriar da natureza do poder elementar que existe apenas em si mesmo. Mas, para isso, é necessário que você percorra um caminho longo que começa pelo rompimento com os oito laços (grilhões) que de certa forma nos aprisiona e apequena:

Segue:

1) Piedade (Daya): Se trata apenas de elevar a dureza da alma e a "insensibilidade egoísta" ao nível ideal. Deixar de ser movido pelos sofrimentos e misérias dos outros e não permitir que ela altere sua alma. O primeiro ser pelo qual não se deve ter misericórdia é de si mesmo. A superação de todo sentimentalismo, que perturba a alma e nada nos acrescenta seria o primeiro laço a ser cortado.


2) DECEPÇÃO (Moka): Isso acontece em conseqüência de um modo de vida incoerente e sem centro, que sempre gravita em torno de algo externo, fora do Eu ou seja depositar suas expectativas no que esta fora. Também é ensinado que decepção, adversidade, infortúnio, fracasso e catástrofe podem desempenhar, de maneira oculta e parcial, o papel de um guru, um mestre espiritual, sui generis; eles podem se tornar "sinais" destinados a nos fazer entender e encontrar o caminho certo.

3) VERGONHA, PECADO (Lajja): O vira não leva em consideração o julgamento de outras pessoas; ele não é afetado pela apreciação da sociedade em que vive, seja uma apreciação negativa ou positiva (está além da "vergonha" e da "honra"). Ele não reconhece nenhum critério (é sempre o domínio social, e não aquele em que o vira reconhece a autoridade do guru da organização à qual ele pertence). Quanto ao "pecado", o uso do termo é inadequado aqui. A ideia de pecado, no sentido em que foi entendida no mundo judaico-cristão, não tem equivalente no Oriente. Aqui falamos não de "pecado", mas de "falta" ou de contaminação, de impureza. Levado à ideia de falha, o pecado envolve não um senso moral, mas uma ação errônea, realizada irracionalmente. Portanto, o pasu deve superar qualquer "complexo de má consciência". A vontade é purificada no sentido de que não é permitido ficar deprimido ao pensar no que fez. Assume-se total responsabilidade pelo ato realizado sem desculpa, ou é abandonado, levando-o adiante com uma força nova, mais lúcida e não diminuída.

5) MEDO (bhaya): O tantrismo atribui particular importância a esse vínculo e sua superação. Mais do que qualquer outro, caracteriza o homem vulgar, o pasu, assim como sua completa ausência testemunha a presença de uma natureza de aderência. Não se trata apenas do medo físico e animal, mas também daquilo que, emergindo das camadas profundas do ser, pode se manifestar em certas experiências supersensíveis. Veremos, assim, que, no limite, o medo é considerado como aquilo que, nas experiências da vida após a morte descritas no Bardo Thódol, nos impede de nos identificarmos com as forças cuja grandeza ou aspecto terrível amedrontam e podem, portanto, tornar-se um obstáculo à libertação de ser. . Por esse motivo, em algumas iniciações da antiguidade ocidental e na Índia, era costume usar testes especiais nos quais todas as formas de medo, desprazer e destemor espiritual tinham que ser superadas. Para esse fim, os meios da magia cerimonial podem ser usados, entre outros.
Presumivelmente, com a mesma intenção, o tantrismo por vezes adotou certas práticas mágicas que, em sua origem, certamente tinham um caráter de magia negra no sentido sombrio da bruxaria. É o caso, por exemplo, de savasana (o asana do cadáver). Em uma casa abandonada, em um pico deserto ou em um cemitério, o praticante desse sadhana fica de pé, com a cabeça voltada para o norte, andando nas costas de um cadáver. Desenhe um yantra, ou seja, um símbolo gráfico (o yantra tântrico mais simples é o triângulo invertido, que representa o Sakti). Ele então invoca os poderes elementares usando mantras, enquanto projeta prana no cadáver para animá-lo (pranapratishtha) e obter a personificação momentânea da força evocada naquele cadáver. Se o ritual atingir seus objetivos, a força se manifesta efetivamente no corpo, cuja cabeça vira e fala com o praticante. Ele deve poder impor imediatamente sua vontade ao espírito. Essa prática é considerada aterradora e muito perigosa: é a mais sinistra dentre as indicadas nos textos e está ligada ao substrato demoníaco das populações aborígines.

6) NOJO (Ghrina): Um tantra dá esse preceito: "Nenhum dos objetos usados deve ser usado com desagrado, concupiscência ou forçosamente".

7) FAMÍLIA (ou lar, parentesco, kula): São essencialmente os vários laços de natureza afetiva típicos de uma existência que, no sentido mais amplo, poderiam ser descritos como burgueses. Levando em conta o que já dissemos sobre o vira, é difícil imaginá-lo no papel de pai ou marido (se for uma família patriarcal) ou filho de uma família. À sua maneira, ele é ascético e se encontra no mesmo nível daqueles que, de acordo com a doutrina hindu tradicional do Asrama (regras que governam os quatro períodos da vida), em um ponto foram responsáveis por desfazer os laços que o comprometeram com uma família e uma casa. Devemos considerar apenas que essa distância pode ter apenas um caráter interior.

8) CASTA (varna): Na concepção indo-ariana, a casta corresponde, em princípio, à natureza - que é diferenciada - e à lei (dharma), de acordo com a natureza de cada uma. Mas já dissemos que, no Caminho da Mão Esquerda, um limite é visto em todo dharma, um condicionamento que deve ser superado. No que diz respeito à purificação da vontade, parte-se da idéia de que nada que foi dado, nem a herança, nem o sangue, nem uma lei interna, nem qualquer situação existencial, deveria ser uma escravidão.

PRECEITOS, RITOS, OBSERVÂNCIAS E PROIBIÇÕES (sila)

É sobre os laços que criam moralidade e conformidade social. Uma vontade livre de todas as leis, assume um caráter radical aqui, a tal ponto que (para dar um exemplo) diz-se que ela deve "sentir-se capaz de se dar ao incesto com a mãe e a irmã". Mas não está excluído que esta seja uma formulação em uma linguagem simbólica e versátil, sobre a qual falaremos a seguir. Como no "incesto dos filósofos" mencionado no hermetismo alquímico ocidental, podem ser dados aqui preceitos perturbadores que têm um significado esotérico que os desdramatiza: a mãe que uma pessoa deve se sentir capaz de possuir é Parasakti, a força primária que, como produtora de tudo, também pode ser representada como a Mãe e, sobretudo, como a Virgem, no sentido de que falamos. Parasakti não é considerado, mas sim o Sakti feminino, em sentido estrito, a contraparte de Shiva, sua irmã, já que os dois são produzidos pela mesma força desdobrada, que faz com que sua união - o princípio básico do tantrismo - adote também um aspecto do incesto (entre irmão e irmã). Mas é evidente que tais interpretações simbólicas são inoperantes no caso de uma "purificação da vontade". É certo que certos grupos tântricos, como os Aghorin, que em rituais sexuais realizados sob o signo de Durga parecem ter uma predileção por uniões de incentivo, não se limitaram a esse ponto de vista simbólico, o mesmo que aqueles que em certos O chakra tântrico (círculos, correntes) aplica a regra de que pouco importa se a mulher a quem eles devem se unir - e que não é escolhida, mas fixa pela sorte - é sua própria irmã ou filha. 

Quando cada um desses grilhões é quebrado, a vida vai se tornando progressivamente real e leve. 
De muitas maneiras essa técnica de icchashuddhi é o primeiro passo para que seus seguidores se entreguem ao "sete pecados mortais" do cristianismo: ganância, orgulho, inveja, raiva, gula, luxúria e preguiça, a fim de se libertarem da mesma forma dos condicionamentos da civilização ocidental moderna. Parte da razão pela qual  tais técnicas são consideradas eficazes na prática hindu é que agora estamos vivendo no que é chamado de  Kali Yuga.
Um polemico hein, mas muito interessante.
Escreverei novamente sobre o assunto.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Como se livrar da tentação?

         Cedendo a ela           Oscar Wilde  Mas desde que ela valia muito a pena, não perca seu tempo com tentação...