terça-feira, 15 de novembro de 2011
AOS ESCREVINHADORES QUE ESCREVINHANDO ESCREVINHAÇÕES ESCREVINHAM A VIDA E A MORTE, RABISCAM O IR E O VIR, DESCREVEM O SER E O ESTAR, DEFINEM O QUERER E O PODER, TINTIM POR TINTIM, DE ACORDO COM O SEU SABER ENTENDER.
Ainda não sei com certeza se foi um grande sonho, uma oportuna alucinação, um imprevisto pesadelo, uma simples bebedeira, ou o evento aconteceu de fato. O que sim garanto é que ocorreu ontem logo depois de deitar e um pouco antes de adormecer (ou terá sido ao contrário?...)
Bem, pouco importa a ordem cronológica. Tenha sido antes, durante ou depois, o fato é que a mensagem chegou de repente, como que trazida pelo vento que lá fora batia impaciente contra a janela do quarto. Pensando melhor, ela talvez estivesse camuflada dentro da garrafa de whisky que pouco antes abrira para afogar um pouco a sede crônica da minha solidão escandinava.
Tratava-se de uma folha de caderno incompleta, amarrotada e em branco, dessas nas quais após uns segundos de perplexidade, as letras aparecem e acomodam-se ordeiramente, parindo palavras organizadas em frases, que a medida em que as digerimos adquirem significado, significância, corpo, volume, essência, peso, valor.
A bem da verdade, ela não estava dirigida a mim, mas ao lê-la tive certeza que não fora o acaso que a trouxera. Era bem curta, mas funda. E, ainda que não mais a tenha comigo, já que o que chega de noite pernoita mas não amanhece, lembro do texto quase como se eu o tivesse escrito.
Era mais ou menos este:
".. lembrar sempre, em cada letra que imprimir, em qualquer argumento que escolher, em todos os ardís que elocubrar para travestir a fragilidade interior; em todos as imagens que verter sobre o bendito papel que tudo aceita; em cada um dos hieroglifos que esculpir tentando explicar-se ao próximo, que cada frase/estrofe/verso é uma estrada que conduz às entranhas da mais profunda intimidade, ao quarto de despejo das mais escondidas angústias, aos bem guardados segredos que descifram o código genético de todas as nossas carências.
Não esquecer nunca que ao escrever instaura-se em cada parágrafo um púlpito desde o qual confessa-se de viva voz e sem direito ao arrependimento, o tamanho das feridas, a profundidade das cicatrizes, o peso específico das dores. Tratar sempre, por causa disso, de alimentar a curiosidade insaciável dos leitores, servindo-lhes um prato cheio de meias-palavras, de gestos contidos, de silêncios apenas esboçados, de sinuosidade despistante.
Na sobremesa da leitura, não esqueça de convidar aos olhares indiscretos que visitarem os seus dizeres, a digerirem sem pressa os seus conceitos, as suas idéias, o seu silêncio, e principalmente, cuide que os comensais ao partirem levem algumas verdades embrulhadas para viagem, outros tantos embustes para consumo imediato, e se possível, uma lágrima de carne e osso - ainda que apenas metafórica - que os obrigue a dizer "não, não, não é nada, foi apenas um cisco". Lembre também que a folha sobre a qual verte os seus dizeres será a ante-sala de sua essência. Que seja, então, o espelho dela.
O que sim, nunca permitir que o seu cantar, que o seu contar, deixe de ser envolvente para quem chega, decorado em tons que lembrem o encontro e não a partida; com móveis que convidem ao descanso e não à crispação.
Diga, nesse mea culpa que subjaz no intestino do seu desleixado talento de saber dizer, o que pensa e sente e espera e sonha, que é esse o seu dever - mas faça-o olhando de frente, nunca esquecendo que o leitor é o seu convidado de honra, o seu amante de turno, o seu verdugo.
Saiba qu.....
Pois é. Era isso e nada mais. Apenas um pedaço de um conselho de amigo que não sei se foi a noite escandinava que o escreveu, o Chivas que o inspirou , a solidão que o gestou, o pesadelo que o gerou, a alucinação que o lapidou. Não sei. Nem importa. Basta-me saber que não basta saber, que não se trata de apenas escrever, nem muito menos de somente dizer.
Bruno Kampel
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