segunda-feira, 18 de julho de 2011

Tem remédio?


Nas paredes da minha casa, um único texto escrito em tinta:
“A Humanidade é uma grande esperança perdida. Cada homem está trancado dentro de si mesmo e sua alma é semelhante a um poço onde só o sofrimento vive e se agita. Solidão, loucura e marginalidade são os destinos das criaturas que se corrompem no dinheiro e no desejo - carcereiros da alma. Não há liberdade fora da morte. A vida é violência e ritual antropofágico. Os únicos companheiros do individuo são o medo e solidão. E, para eles não há remédio, conseqüentemente não há cura.”
(Tenessee Williams)

Ela passa dias sentindo um êxtase no corpo. 
Ela beija bocas. 
Ela dança até o salto tingir o asfalto de negro. 
Ela amanhece. 
Ela anoitece. 
E ela sorri.
Ela se sente deprimida. 
Cansada. 
Mal-amada. 
Com raiva da vida.
[...] Ela sai para comprar.
- Um pouco de felicidade, por favor?
- R$ 250,00 De 3 a 5 gotas debaixo da língua.
Pode tomar mais se a angustia não for embora.
- Mas isso vicia?
- Não são gotinhas para bebê
Médicos também servem pra isso!
Vou te receitar algo para dormir, outro para se sentir bem disposta. 
E vou te dar uma pílula que vai diminuir sua ansiedade perante a vida. 
E alguma coisa para abrir seu apetite daqui a uma semana você não vai sentir mais nada.
Ela começa a sentir uma ausência de energia, falta de movimentos, um choro agudo que às vezes deságua nos olhos sem ela perceber. 
A memória começa a falhar. 
O sexo não é mais o mesmo. Orgasmo faz tempo que não acontece, a vontade é pouca, tenta se tocar, mas o prazer que sentia antes já se ausentou do seu corpo.
Ela passou a não sentir mais nada, nem angustia, nem tristeza, nem amor, nem desejo, nem nada que um ser humano deve sentir. 
Porque o mundo hoje esta sendo preparado para sumir com tudo isso.
Vamos esconder todas as dores do mundo dentro dessas fabulosas cápsulas. Seremos máquinas movidas a clonazepan, antidepressivos e ansiolíticos estimulantes...
O que seria das escritas de Virginia Woolf, Fernando Pessoa, Rimbaud, Baudelaire, se a dor, a solidão a angustia fosse deletada de seus cérebros?
[...] Por que os que têm tudo não são felizes? [...]
“Se os ricos não são felizes é porque a felicidade não existe.”
[...] Um diário dessa pobre menina rica que preenche seus dias consumindo e lendo Baudelaire. 
[...] O retrato de uma geração talvez essa em que vivemos.
Esconder sua angustia para fingir que a felicidade é constante; consome sua tristeza substituindo por roupas de grife e ansiolíticos.
Se eu posso comprar porque vou sobreviver com essa dor?  
A tirania das dependências químicas que prometem a felicidade, esta ganhando cada vez mais espaço. Meninas de quinze anos já buscam algo para combater suas tristezas. Receitas que são dadas aleatoriamente por médicos que muitas vezes não são das áreas neurológicas nem psiquiátricas acaba criando uma facilidade de acesso totalmente irresponsável, afetando o crescimento delas. 
O vazio existencial é inerente ao nosso querer. 
A beleza do ser humano está nessa constante procura de se encontrar. 
 Sem isso não há vida, não há criação.
 Barbara Paz* 


Fonte:Revista O Globo de 17/07/2011

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