Em 1998 a revista Veja publicou uma matéria com o título: “Melhores do que os pais”. Referindo-se a uma geração de crianças e adolescentes que, em função dos avanços educacionais e científicos, mostrava-se com grandes perspectivas futuras, o texto desperta a atenção para uma sutil tendência, calcada em aspectos racionais, de desvalorização da figura dos pais e professores. Segundo alguns entrevistados, “Eles [os jovens] são filhos da tecnologia da informação. Quem faz a cabeça deles, mais do que os pais, são os estímulos do mundo moderno”. Ou então, “Os professores precisam estar preparados para receber na sala de aula alguém que sabe mais do que eles. Se não forem treinados para lidar com essas crianças, vão perder a vez.”
Longe de negar a importância da evolução científica ou de desvalorizar os jovens, e sem a intenção do discurso nostálgico em defesa dos “velhos tempos”, cabe levantar uma questão: porque o relato sobre os avanços da nova geração é acompanhado de uma desvalorização do contato com a geração precedente?
A idéia de que os jovens, por contarem com tecnologia e máquinas, poderiam prescindir das influências das figuras paternas e de seus substitutos (no caso os professores) relega a um segundo plano não só papéis sociais estruturantes do psiquismo, como também os laços afetivos que envolvem o ser humano.
De acordo com Carmem Steiner, na vida contemporânea consolidou-se um modelo que diminuiu patologicamente o espaço para o diálogo, para falar dos fatos, imagens, relatos e afetos do mundo cotidiano.
A evolução tecnológica tem como contrapartida a emergência de um poder ilusório que acena com a possibilidade de satisfação imediata dos ideais narcisistas, na qual “(...) certo poder é delegado a um objeto com a ilusão messiânica de conjurar definitivamente a ameaça do abandono e do desamparo”. A possibilidade de negar a dependência afeta também os regulamentos sociais básicos e suas representações sociais correspondentes. Segundo Milmaniene, vivemos em “um mundo no qual a defecção estrutural da figura paterna” gerou, entre outros efeitos, a perda de valores e ideais, uma realidade em que se perdem limites, dignidades e hierarquias simbólicas, a desvalorização do pacto com a palavra e a emergência da violência irracional sem código, que busca a destruição gratuita do Outro.
Assim, não parece um simples acaso que, sete anos depois, em maio de 2005, a revista Veja publique a reportagem “Com medo dos alunos”, na qual mostra a falta de disciplina e o desrespeito total dos alunos para com os professores, não em escolas de periferia violenta das grandes cidades, mas em colégios de classe média alta. Segundo a revista, trata-se de um “fenômeno de subversão do senso de hierarquia”, em que os pais, “sentindo-se culpados pela omissão [seria “o domínio de Ninguém” e/ou da culpa coletiva?], evitam dizer não aos filhos. É uma relação contraditória. Entregaram a educação dos filhos aos colégios, mas alguns acham exageradas as exigências escolares ou as punições impostas aos indisciplinados”. Por fim, ao contrário do texto anterior, a reportagem reconhece que “a autoridade do professor é importante no processo de aprendizagem do aluno”.
Penso que as reportagens constituem dois momentos de um processo. Na primeira, conforme vimos acima aparece uma tendência a desfazer representações sociais importantes. Traçando-se uma linha de continuidade com os fenômenos psíquicos individuais, o obstáculo a estabelecer ligações com representações internas na mente do indivíduo gera, muitas vezes, uma angústia intensa que pode levar o sujeito a ocupar o espaço vazio com manifestações de agressão.
A dificuldade dos pais e professores no trato com os jovens, relatada na segunda reportagem, representa uma insuficiência de representações com a conseqüente confusão dos limites necessários à constituição do psiquismo, gerando a possibilidade da emergência de uma violência sem código.
Achei esse trecho interessante e atual, apesar da publicação já ter alguns anos, faz parte do:
Trabalho apresentado na mesa-redonda “A ausência do poder e suas conseqüências psicopatológicas”, no XX Congresso Brasileiro de Psicanálise. Brasília. 11-14 de novembro de 2005.
Psicanalista. Membro-Associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre
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