sábado, 30 de abril de 2011

O nariz por trás do perfume


O perfume é uma mentira que diz a verdade.
"A arte é baseada na noção de ilusão. E a ilusão é muitas vezes mais forte do que a realidade. Consegue-se fazer crer que é ainda mais verdade do que a própria verdade" 
Jean-Claude Ellena  


A primeira lembrança de Jean-Claude Ellena de um odor remonta aos seus quatro anos de idade. 
'Lembro como se fosse hoje do cheiro dos biscoitos guardados em um pote no alto do armário da cozinha. Era obrigado a subir numa cadeira para poder alcançá-los', diz. 
Hoje, aos 61 anos, esse francês nascido em Grasse, cidade mediterrânea do sul da França reputada por suas flores e oliveiras, é perseguido pelos odores mesmo durante o sono. 
'Sempre durmo com uma folha de papel e uma caneta na cabeceira da cama. 
Ontem à noite, por exemplo, despertei no meio da noite com a idéia de um odor, prontamente anotei as sensações do cheiro e depois voltei a dormir', conta, como se fosse um poeta a sonhar com versos de rimas aromáticas.


Seus curiosos hábitos se justificam: Jean-Claude Ellena é um dos mais respeitados criadores de perfumes contemporâneos. Como se diz no jargão do meio, trata-se de um 'nariz', um profissional de olfato apurado e mestre em misturar ingredientes para produzir exclusivos líquidos perfumados, bem-guardados em cobiçados frascos. No seu caso, o aprendizado também vem de berço. Seu pai trabalhou em dois grandes grupos fabricantes de perfumes, o americano IFF (International Flavors & Fragrances) e o suíço Givaudan. E a tradição se perpetua na família: a filha, Céline Ellena, sucumbiu ao charme das fragrâncias e se tornou 'nariz' da grife The Different Company, fundada pelo pai.


Como um sommelier capaz de identificar a origem e a safra de um vinho, um 'nariz', ao sentir a essência de um jasmim em um pequenino frasco, consegue apontar se a matéria-prima é proveniente do Egito, da Itália ou da França. Uma pessoa normal distingue entre três e quatro paladares em um vinho e igual quantidade de odores em um perfume. Para um profissional, no entanto, esse número é multiplicado por dez. 


Autor de clássicos como First (Van Cleef & Arpels), L'Eau Parfumée au Thé Vert (Bulgari), Déclaration (Cartier), Eau de Campagne (Sisley) ou Cologne Bigarade (Frédéric Malle), Jean-Claude Ellena ocupa desde 2003 o prestigioso cargo de diretor de criação de perfumes da Hermès, célebre maison do Faubourg Saint-Honoré, em Paris.



Mas não basta fama, faro sensível e um savoir-faire familiar para se criar bons perfumes. Compor uma fragrância é como improvisar um prato na cozinha, mas, a exemplo dos melhores chefs, exige intuição e também muita ciência. O momento mágico provocado pelo efeito do contato do bálsamo na pele é precedido de um longo e complexo processo. Artesão em seu laboratório de Cabris, nos arredores de Grasse, onde trabalha com apenas um assistente, Ellena brinca com a imagem que ainda se faz do perfumista: 'As pessoas que vêm aqui me visitar acham que vão me encontrar no meio do campo, espremendo flores. Mas a abordagem é, antes de tudo, intelectual' 


A incessante busca pela perfeição da fórmula faz o perfumista moderno recorrer a proezas técnicas ignoradas pelo simples consumidor. Para criar Un Brin de Réglisse, recente lançamento da coleção Hermessence, por exemplo, Ellena extraiu de 300 moléculas de lavanda as cinco ou seis que não lhe interessavam para o perfume imaginado. A experiência adquirida em anos tornou-o minimalista. A quantidade de matérias-primas com que trabalha foi depurada: de cerca de mil produtos passou a somente 200. Na composição de First, criado em 1976, com apenas 28 anos, utilizou 160 ingredientes; já a receita do recente Un jardin en Mediterranée (Hermès) não possui mais do que 26. Nas fórmulas de suas dez criações lançadas nos últimos três anos, Ellena utilizou no total 130 componentes. Seu mais longo perfume levou nove meses para ser finalizado. 'Simplifiquei o processo. Quero criar perfumes legíveis. Quando se tem muitos elementos, o perfume se torna incompreensível. Pode-se criar o novo com pouco', diz. 



Mas a técnica de nada serve sem a inspiração. Para elaborar Un Jardin sur le Nil, Ellena partiu rumo a Assouan, no Egito, acompanhado de um staff da Hermès, um fotógrafo e uma equipe de filmagem para registrar o insight do criador. O estalo ocorreu durante uma excursão no rio Nilo, ao sentir o perfume de uma manga verde. Un Jardin en Mediterranée surgiu a partir do odor de uma folha de figueira, espremida e cheirada por uma jovem. Para fazer Un Jardin après la Mousson, sua mais recente criação, o perfumista viajou para os lagos do Kerala, na Índia, até encontrar a flor capaz de 'colocar a chuva em odor'.



Em viagens pelo mundo ou em noites de sonho em seu lar no sul da França, o cheiro não tem hora marcada. 'Vivo 24 horas através do odor, nem percebo, já é algo normal', diz. O aplicado 'nariz' insiste na necessidade de se saber 'contar uma história' por meio da combinação de ingredientes. Segundo ele, o perfume é uma mentira que diz a verdade. 'Toda a arte é baseada na noção de ilusão. E a ilusão é muitas vezes mais forte do que a realidade. Consegue-se fazer crer que é ainda mais verdade do que a própria verdade', diz.
 Jean-Claude Ellena é um dos poucos 'narizes' exclusivos de uma marca. A maioria das grifes recorre aos serviços de 'narizes' dos grandes grupos fabricantes de perfumes. Hoje, cinco dessas empresas dominam o mercado global. Além da IFF e da Givaudan, sobressaem-se a também suíça Fiermenich, a alemã Symrise e a japonesa Takasago.



Instalada em sua ampla sala envidraçada, a mesa de trabalho repleta de vidrinhos contendo provas de misturas de extratos, Nathalie Lorson, 48, é um dos dez 'narizes' da filial francesa da Fiermenich em Neuilly-sur-Seine, no subúrbio de Paris. Autora de Bulgari pour femme ou Encre Noir e Perles, duas criações suas para a marca Lalique, Nathalie foi uma das primeiras mulheres a se destacar no outrora masculino meio dos 'narizes'. 'Era um meio bastante fechado, masculino, não se queria investir em mulheres, pois elas ficam grávidas e passam meses sem trabalhar', afirma.


Com uma quinzena de pedidos de novos perfumes, em concorrência permanente com outros grupos, Nathalie aspira mais odores do que respira ar. Para finalizar um único perfume, faz entre 400 e 600 testes no decorrer de um ano, tempo médio que diz levar para criar uma fragrância. 'É um processo longo, provar, sentir, os odores diferem a cada dia'. Os fins de semana, em que passa todo o tempo perfumada com suas provas, são usados como períodos de teste. A família também é usada como cobaia: 'Meus filhos usam tudo o que levo para casa', conta, rindo. 
Um dos primeiros perfumes de que se tem notícia é o Le Parfum Royal, do século 1, utilizado pelos romanos como um 'aperitivo olfativo' antes de ir à mesa. Já o Eau de la Reine de Hongrie, do século 14, é o primeiro produto aromático alcoólico conhecido. Em vez de destilar a alfazema com água, como se fazia até então, teve-se a idéia de usar o álcool, o que com o tempo se tornou norma. Muita coisa mudou desde o surgimento das primeiras fragrâncias criadas pelo homem. Nathalie Lorson acredita que, hoje, está em formação uma nova consciência das marcas e dos consumidores em busca de melhor qualidade, um retorno ao luxo. Para Ellena, a visão econômica prevaleceu à estética e a arte da perfumaria decaiu em prestígio. 'Há uma necessidade em se dar novamente um encantamento ao perfume', observa. Sejam quais forem as invenções futuras (caso da crescente pesquisa por moléculas de cheiro artificiais), o perfume, como observa Jean-Claude Ellena, permanecerá uma fascinante história de odores e uma poesia de suvenires, presente na memória como um secreto aroma de biscoitos da infância.

Feminista mas também feminina, ela acredita em sensibilidades olfativas diferentes para os sexos: 'São perfumes com escritas distintas. As mulheres têm mais emotividade, os perfumes possuem mais delicadeza e suavidade, já as notas masculinas são mais robustas'. Mas não há regras definitivas, ressalta. Nas últimas décadas, por exemplo, passou-se a usar aromas amadeirados para os perfumes femininos, o que antes era uma exclusividade das fragrâncias masculinas. 'A madeira reflete autenticidade, afirmação, o que corresponde à imagem da mulher moderna, independente, que trabalha. Acabou o uso abundante de notas florais e suaves para os perfumes femininos', diz.


Uma das tendências atuais, segundo ela, são as notas florais verdes. 'Com a conotação atual do natural, do bio, do vegetal no aroma, o floral verde está em alta na forma de um odor não muito cru ou agressivo, mas com frescor. As notas de couro e resina, esquecidas, também retornam. Acho que são pistas futuras', afirma.
Nathalie Lorson define seu trabalho na grande indústria da perfumaria semelhante ao de uma atriz: 'Uso o mesmo grupo de ingredientes para criar um perfume para a Givenchy e para a Lalique. Sou a mesma pessoa, mas a cada vez encarno um personagem, tento me colocar na pele da marca, fazer um produto que se identifique com a grife e moldado ao desejo do cliente'. Quando obtém sucesso com um perfume que pouco tem a ver com sua identidade olfativa, costuma dizer que atuou como uma excelente atriz.
A Fiermenich possui 2500 matérias-primas em seu catálogo, 700 delas naturais e as demais sintéticas. 'Para cada produto, chega-se a ter 30 qualidades de odor diferentes. Eu costumo trabalhar com uma paleta de 200 a 250 matérias. Mas sempre vamos procurar um ou outro produto à parte para dar o diferencial', explica.
Por Fernando Eichenberg. Fotos Thomas Kremer




Eu AMO perfume. 
E como vinho, prefiro um importado mais baratinho ao mais caro nacional.
Cada macaco no seu galho né.
Eles são doutores, nós ainda não aprendemos nem escrever.
"Franceses são muito melhores".  Claro essa é a minha opinião e preferencia.
Lendo essa matéria, da para se saber o porque, eles são muito melhores...


Meus cheirinhos no momento:Bulgari pour femme, Lou Lou Cacharel, 273 Bervely Hills

3 comentários:

  1. Com certeza os franceses são muito melhores, srsrsrs o meu é o Poison Dior. Maravilhoso.

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  2. Sobre perfume. Indico que leia ou veja o filme. O Perfume, História de um Assassino

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  3. Me identifico com Kenzo Jungle.
    Experimente Flower by Kenzo. Vai gostar.:-)

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