terça-feira, 5 de abril de 2011

O dia que Mariazinha descobriu que queria ser freira.

Lembro como se fosse hoje. Adentrando pela primeira vez aquele enorme portão de cavalinho no pescoço do meu pai. Logo na entrada passamos por um lugar muito acolhedor e sereno. O cemitério. Do alto aquilo parecia ainda mais bonito. Um corredor de flores e arvores frutíferas. Na entrada um pequeno Nixo com N. Senhora de Lourdes. "Ouvi" pela primeira vez o silencio do Claustro. Um cheiro de goiaba que ia ficando cada vez mais intenso e gostoso conforme íamos caminhando. E de repente, elas: em silencio, cercadas por baldes, bacias e caixotes cheios de goiaba. Algumas descascadas outras por descascar.
Elas em seus hábitos brancos e véu negro, a mostra apenas rostos angelicais, que abriram um belo, largo e afetuoso sorriso assim que me viram. Talvez elas não vissem uma criança tão próxima há muitos anos, tamanha foi a emoção. Um encantamento mutuo. Mariazinha também ficou encantada, mas sempre escondida atrás do pai. Foi o encontro escondido mais bonito de sua vida. Depois das apresentações e dos sorrisos iniciais explicaram ao meu pai que era proibido a entrada de crianças na Clausura e o contato direto com elas. Sendo assim o passeio seguiu as escondidas. Fui levada há um grande galpão onde era feito doce em um enorme tacho de cobre em um gigantesco fogão de barro. O cheiro que senti aquele dia nunca mais saiu de minha memória. E com mais ou menos seis anos, decidi o que queria ser quando crescesse. Uma religiosa de clausura. Uma monja contemplativa. Uma esposa de Cristo.
Mas antagonicamente nessa mesma época Mariazinha conheceu o travesseiro. Tinha apenas seis anos quando descobriu que o travesseiro não servia só para colocar a cabeça durante a noite. Que também, causava-lhe uma agradável sensação quando colocado no meio das pernas. Como ela descobriu não se sabe. Mas descobriu, gostou e fazia constantemente até que: estava ela com o travesseiro em um esfrega esfrega inocente, nesse exato momento sua tia passou e viu a cena. Malvada tia, a apavorou com as seguintes palavras: “O que isso que você estava fazendo menina, Sua mãe já viu isso? Se ela ficar sabendo vai te dar uma surra”. 
A maldade está nos olhos de quem vê, pois naquela época ainda não estava na mente da pobrezinha. Aquele dia a menina fez tudo que podia para agradar a maldita da fofoqueira da tia. Mas na sua ingenuidade, não demorou muito para esquecer o episódio. 
Certo dia vendo TV com sua mãe, Mariazinha pega o travesseiro e coloca disfarçadamente no meio das pernas, mas mesmo no escurinho da sala, não demorou para a mãe perceber o esfrega esfrega de menina. E foi aquele sermão e uma ameaça: se eu ver você fazendo isso de novo você vai se ver comigo. Naquele dia Mariazinha entendeu que o travesseiro na frente dos outros só servia para dormir. E assim foi. Toda vez que ela queria brincar de casinha com o travesseiro ela procurava um lugar tranqüilo e longe do olhar inquisidor dos outros. Mas não largou mais a prática. Por outro lado ia à missa quase todos dias...




Continuo quando me der vontade, mas posso adiantar que, anos se passaram e ela adentrou o claustro dessa vez pelo portão da frente, e o travesseiro, continuou a fazer-lhe companhia ...

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