Ela judia; ele, nazista
Uma das relações emocionalmente mais controversas entre intelectuais definitivos para o pensamento e a história do século passado foi a dos filósofos Martin Heidegger e Hannah Arendt. Os dois se conheceram na Universidade de Marburg, em 1924, quando ela era uma jovem estudante de 18 anos, e ele, um professor de destaque.
Um dos pensadores mais influentes do século 20, Heidegger ficou marcado também por sua ligação com o regime nazista, enquanto Arendt, judia, dedicou boa parte de sua importante obra ao estudo de regimes totalitários.
O engajamento político de Heidegger provocou reflexões muito sérias em Arendt, sobretudo no que diz respeito à tensão entre filosofia e política que orienta a tradição da filosofia política ocidental desde sua origem, com Platão. Por outro lado, e dado que ela nunca considerou o pensamento de Heidegger como intrinsecamente nazista, isso não lhe impediu de buscar inspiração em certos conceitos de Heidegger a fim de repensar as possibilidades da própria teoria política após a ruptura do fio da tradição.
O choque e a decepção com o engajamento de Heidegger foram importantes na definição da trajetória de seu pensamento. Até 1933, ela não tinha preocupações intelectuais a respeito da política. A partir de então, se posicionou por meio da total recusa do meio intelectual e do engajamento na ação direta de resistência ao nazismo.
Somente em 1946 ela voltaria a discutir questões estritamente filosóficas, ao publicar, já nos EUA, um texto introdutório sobe o pensamento existencial alemão. Nela, criticou o pensamento de Heidegger em Ser e tempo, acusando o conceito de autenticidade de solipsista e romântico. Em 1949 ela mudou sua avaliação, chegando a referir-se aos conceitos de Ser e tempo como contribuições decisivas para a renovação do pensamento político. A mudança certamente teve a ver com o reencontro e o reatar de laços entre os dois.
Isso não significa que Arendt dependesse intelectual e afetivamente de Heidegger. Talvez a melhor definição para o estado da relação teórica e afetiva do casal esteja contida em uma pequena nota que Arendt pretendia entregar a Heidegger como dedicatória ao volume de A condição humana, mas não o fez, em que ela dizia que havia "permanecido fiel e infiel" a ele, "ambas as coisas com amor"
Por Fabiano Curi, jornalista e professor universitário
Estranho amor
Cartas revelam detalhes do relacionamento
entre Hannah Arendt e Martin Heidegger
O alemão Martin Heidegger foi um dos mais originais filósofos do século XX. Foi também um nazista, e uma figura patética em sua vida privada. Sobre os dois primeiros fatos, há provas bem conhecidas. Centenas de livros, escritos em várias línguas, atestam a profunda e duradoura influência cultural do autor de Ser e Tempo. Da mesma forma, a ligação de Heidegger com o nacional-socialismo está fartamente documentada. Ele filiou-se ao partido de Hitler no começo dos anos 30. Em 1933, como reitor da Universidade de Freiburg, proferiu um discurso inflamado sobre o papel da ciência nos novos tempos, e encerrou a noite com a suástica na lapela e o braço erguido, proferindo a saudação "Sieg Heil!". Embora pouco depois tenha se desiludido com o movimento, jamais revelou em público sinais de arrependimento. Manteve até o final da vida um silêncio orgulhoso – e imperdoável – a respeito de seu passado político. Muito mais escassas foram até agora, no entanto, as informações sobre a intimidade de Heidegger. Só nos últimos anos as primeiras biografias alentadas vieram à luz. E mesmo esses estudos tiveram de ser redigidos sem o conhecimento adequado de documentos importantes, como parte da correspondência do filósofo. Dentre essas cartas fundamentais, encontram-se as que Heidegger trocou com Hannah Arendt, a brilhante pensadora judia que escreveu Origens do Totalitarismo e explicou ao século XX o lado mais sombrio de sua história política. Editadas na Alemanha no ano passado e agora publicadas no Brasil, as cartas de Hannah Arendt e Martin Heidegger (tradução de Marco Antonio Casa Nova; Relume Dumará; 330 páginas; 35 reais) revelam os detalhes de um intrigante caso de amor, cultivado pelos dois ao longo de cinqüenta anos.
A correspondência divide-se em três períodos. O primeiro, que vai de 1925 a 1933, é aquele em que um romance propriamente dito se desenvolveu. O término dessa fase coincide com a ascensão de Hitler ao poder e com o início da perseguição aos judeus na Alemanha. Nesse momento, Hannah foge para a França – não sem antes ouvir os primeiros rumores sobre uma possível conversão de Heidegger ao nazismo. Durante os anos 30 e toda a década de 40, os antigos amantes não mais se falaram. O segundo período da correspondência começa em 1950 – data em que Hannah, que vivia exilada nos Estados Unidos, visita a Europa pela primeira vez depois da II Guerra Mundial. Ela se reencontra com Heidegger e, até 1965, os dois tratam de recompor seu relacionamento, agora sem contato físico, mas com base na convicção de que foram e continuarão sendo almas gêmeas. Por fim, o último grupo de cartas circula entre 1966 e 1975, ano da morte da filósofa. Destaca-se aí o esforço empreendido por ela para tornar conhecida a obra de Heidegger na América.
As cartas revelam que ao longo dessas várias décadas uma mesma história sempre se repetiu: a da dedicação de Hannah, contraposta ao egoísmo de Heidegger. No período inicial do namoro, por exemplo, foi ele – um homem já casado e pai de dois filhos – quem impôs todas as regras, tendo em vista a preservação de sua "dignidade". Mas talvez tenha sido na segunda fase do relacionamento, aquela iniciada em 1950, que o caráter pusilânime do filósofo se manifestou com maior clareza. Pois aí foi tanto a Hannah quanto a sua mulher, Elfride, que ele impôs sua conveniência. Às duas mulheres, profundamente diferentes entre si, ele impingiu a humilhação de conviver e se tornar "amigas". Vale notar ainda que nesse mesmo período Heidegger sempre esperou de Hannah a devoção de uma antiga aluna, mas demonstrou-se incapaz de dedicar aos belos livros que ela própria escreveu um átimo sequer de atenção. Talvez seja incorreto dizer que o amor de Heidegger por Hannah Arendt não foi um sentimento autêntico. Mas o filósofo jamais permitiu que esse sentimento se sobrepusesse a seus interesses. Ao contrário do que disse o poeta Fernando Pessoa, a correspondência entre Hannah e Heidegger demonstra que nem todas as cartas de amor são ridículas. Ao expor o lado mais íntimo dos "grandes homens", há aquelas que provocam um melancólico desapontamento, em vez de riso.
"Caro Martin,
Dirijo-me a você com a antiga certeza e com o velho pedido: não se esqueça de mim e não esqueça o quão profundamente sei que o nosso amor foi a bênção da minha vida. Nada é capaz de abalar esse saber – e isso mesmo agora, no momento em que encontrei uma pátria e um porto seguro para o meu desespero (...) Escuto às vezes algo sobre você. No entanto, tudo envolto em um tom particularmente estranho e indireto: no tom que sempre está presente na elocução dos nomes famosos. De um modo quase torturante, gostaria tanto de saber como você está, em que está trabalhando e como Freiburg o está recebendo!
Um beijo meu em sua fronte e em seus olhos.
Sua Hannah"
Trecho de carta de 1929
"Cara Hannah!
A insinuação de que não cumprimento judeus é uma difamação tão baixa que a anotarei aliás para mim futuramente. Como esclarecimento de como me comporto em relação aos judeus, cito apenas os seguintes fatos: quem me enviou há algumas semanas um trabalho extenso para uma leitura urgente é um judeu. Os dois bolsistas da sociedade beneficente que foram alocados por mim são judeus. Quem conseguiu através de mim uma bolsa para Roma é um judeu. Quem quiser chamar isso de 'anti-semitismo furioso' pode fazê-lo. De resto, sou tão anti-semita hoje em relação a questões universitárias quanto há dez anos.
Saudações cordiais.
M."
Trecho de carta de 1932
"Por que será que o amor é imensamente mais rico do que qualquer
outra possibilidade humana? Por que se mostra, aos que são tocados
por ele, como um doce fardo? Porque nos transformamos naquilo que
amamos sem deixarmos de ser nós mesmos. Gostaríamos, então, de
agradecer à pessoa amada e não encontramos nada que seja suficiente
para tanto. Só podemos agradecer através de nós mesmos.
O amor transforma o agradecimento em fidelidade para conosco e em
crença incondicional no outro. Dessa forma, o amor intensifica
constantemente o seu segredo mais peculiar.
A proximidade implica aqui a maior distância diante do outro. Essa
distância não deixa nada desaparecer, mas nos lança ao seio da simples
presença de uma revelação transparente, apesar de incompreensível.
O coração nunca está em condições de dominar o despontar repentino
do outro em nossa vida. Um destino humano entrega- se a um destino
humano, e o ofício do amor puro/ casto é manter
desperta essa entrega exatamente como no primeiro dia"
Trecho de uma carta de Martin Heidegger a Hannah Arendt
outra possibilidade humana? Por que se mostra, aos que são tocados
por ele, como um doce fardo? Porque nos transformamos naquilo que
amamos sem deixarmos de ser nós mesmos. Gostaríamos, então, de
agradecer à pessoa amada e não encontramos nada que seja suficiente
para tanto. Só podemos agradecer através de nós mesmos.
O amor transforma o agradecimento em fidelidade para conosco e em
crença incondicional no outro. Dessa forma, o amor intensifica
constantemente o seu segredo mais peculiar.
A proximidade implica aqui a maior distância diante do outro. Essa
distância não deixa nada desaparecer, mas nos lança ao seio da simples
presença de uma revelação transparente, apesar de incompreensível.
O coração nunca está em condições de dominar o despontar repentino
do outro em nossa vida. Um destino humano entrega- se a um destino
humano, e o ofício do amor puro/ casto é manter
desperta essa entrega exatamente como no primeiro dia"
Trecho de uma carta de Martin Heidegger a Hannah Arendt
Fonte:http://historianovest.blogspot.com/2011/02/ela-judia-ele-nazista.html?
http://veja.abril.com.br/131200/p_230.html

Quero muito comprar este livro, vc o venderia?
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