Data: 1512-1515. Artista: Leonardo da Vinci.
Diante dessa diversidade e impulsionado pelas paixões naturais, o ser racional não tem alternativa senão fazer escolhas, mesmo que seja em forma de fugas. É através dessa crescente riqueza circunstancial, estimulada pelas constantes descobertas e inquietações sociais, que se revelam as múltiplas faces da inteligência e também os segredos do funcionamento da mente e da aprendizagem. Foi por esse motivo que somente agora, em plena era tecnológica, antigas verdades, guardadas à sete chaves nos círculos ocultos, vieram à tona nos tempos atuais.
Photographer: Arthur Sasse.
Foi dessa forma que desabou o mito científico da inteligência única e da pedagogia unilateral. Quando um Huberto Rohden afirma que “ninguém educa ninguém” - porque a educação é intransitiva – ou um Carl Rogers demonstra que o professor é apenas um facilitador, estão revelando essa face enigmática e atraente da mente humana, qu e só aprende algo e se deixa educar quando toma a decisão de se transformar. Quem decide o momento da educação é o próprio educando, pela auto-aprendizagem, que é a busca da sua realização. A educação não é somente intransitiva, mas é também imprevisível, como o próprio ser humano.
Painter: Antoine-Jean Gros.
Inteligência sempre foi sinônimo de poder e superioridade e durante muito tempo ela vem sendo objeto sistemático de culto um social, sobretudo no mundo competitivo pós-industrial. Segundo esse conceito cultural, as pessoas tidas como inteligentes geralmente são vistas como seres superiores aos demais. Mas são superiores em que sentido? Em que circunstância? Alexandre Magno, Júlio César e Napoleão Bonaparte eram seres muito inteligentes, mas não eram seres superiores aos demais seres humanos em diversos sentidos.
Photographer: Unknown.
Hitler, apesar de ser vegetariano e abstêmio de carne, fumo e álcool, nunca foi exemplo de superioridade, sobretudo no aspecto moral. Todos eles eram seres humanos e, portanto, tinham limi tes não ultrapassados pelo tipo de inteligência que possuíam. Hitler tinha preconceitos contra judeus, negros, mulheres, etc.; isso é um limite na capacidade de solucionar problemas de convivência com aqueles que consideramos diferentes. Aliás, considerar pessoas ou conceitos diferentes como “inferiores ou “piores” denota claramente falta de habilidade mental para romper limites. Todos esses falsos “gênios” da história cometeram erros ao fazer escolhas e avaliações emocionais, provando que a inteligência que possuíam era limitada e parcial.
Photographer: Unknown.
Foi isso que diferenciou esses famosos e “inteligentes” estadistas de alguns seres também inteligentes como Santo Agostinho, Gandhi, Confúcio ou Martin Luther King. Esses últimos eram pessoas que exibiam um tipo de inteligência não muito adequada para os padrões competitivos da arte militar e da conquista de territórios, mas extremamente habilidosos na competição contra inimigos interiores e na conquista do árido território íntimo. Eram, além de inteligentes, muito equilibrados emocionalmente. Suas conquistas interiores, aparentemente frágeis e impotentes, promoveram assustadoras mudanças exteriores, de grande impacto social. Logo, o equilíbrio emocional é um grande diferencial de inteligência. Isto porque, além da cognição e do pensamento lógico, esses indivíduos ampliaram suas inteligências através de outras experiências mentais, manifestadas pelos sentimentos e ações ainda incomuns na maioria dos seres humanos.
Foto: Howard Sochure.
É por isso que o conceito de inteligências múltiplas abriu uma nova perspectiva na área do conhecimento, pois rompeu com os limites da “inteligência única”, que é por si só limitada e restrita, deslocando o ser humano para a “vivência”, que é uma forma de inteligência mais ampla, infinitamente irrestrita e ilimitada. Vivência pode ser chamada de inteligência total ou integral, enquanto a inteligência, única e isolada, é fragmentada e parcial.
Artist: Raffaello Sanzio.
A inteligência é um meio para se chegar ao conhecimento; a vivência é um fim, é o próprio conhecimento. E este “fim” não é o limite, mas o eterno “início” de novas e eternas experiências. Logo, conhecimento é uma experiência que na verdade não tem fim. Quanto mais conhecemos mais tomamos consciência de que não sabemos muito.
A melhor expressão da espécie humana é sua inteligência, diferenciada das demais espécies pela sua capacidade de fazer escolhas. E a maior expressão dessa inteligência são os sentimento e emoções, paixões e compaixões que o ser humano demonstra em relação às coisas e aos seus semelhantes. Este é o motivo pelo qual todas as culturas ensinam, de acordo com as suas tradições, que o Homem foi criado à imagem e semelhança da Divindade. Ao contrário do caráter quase estático da inteligência instintiva dos animais, a inteligência humana é dinâmica e constantemente desafiada pelas circunstâncias das existências. O fator mudança-adaptação do plano biológico animal é lento e quase imperceptível; porém, no plano psicológico hominal, é extremamente veloz, devido à percepção racional e dada à riqueza e diversidade das situações existenciais da experiência social humana.
Essa foi a vivência de Sócrates e foi por esse motivo que o oráculo o apontou como o homem mais sábio da Grécia, exatamente porque o conhecido filósofo vivia afirmando que nada sabia e que a experiência mais importante na vida era o “Conhece-te a ti mesmo”.
Por Dalmo Duque dos Santos
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