terça-feira, 5 de abril de 2011

“De degrau a degrau, vamos descendo até o grunhido”.

Não é um texto sintético e tem bem mais de 140 caracteres mas vale a pena conferir muito atual e pertinente...
Nada contra sínteses, muito pelo contrario. Às vezes podemos resumir um monte de blá, blá, blá em poucas e boas palavras. Mas muito do que está acontecendo por aí não são sínteses e sim falta de idéia ou preguiça de expressa-la.



Resistindo à tendência dos grunhidos
Achei a discussão proposta tão interessante que resolvi explorá-la aqui também. O ponto de partida do post foi a polêmica declaração do emérito escritor José Saramago sobre o Twitter, microblog que permite as pessoas expressarem seus pensamentos e sentimentos em até 140 caracteres. A declaração de Saramago a 

respeito da ferramenta foi simples e direta – e nem por isso, superficial: 

“De degrau a degrau, vamos descendo até o grunhido”.

É interessante a remissão subentendida de Saramago ao momento atual da comunicação verbalizada como uma espécie de evolução da comunicação às avessas. De degrau em degrau, a começar pelos grunhidos, a mais primitiva forma de comunicação humana (que nos equiparava a quaisquer outros animais que emitem sons na natureza), atingimos o topo: a comunicação lingüística elaborada, com a qual o transmissor é capaz de expressar-se plenamente e o receptor, de entender perfeitamente. Chegamos ao nível em que nos tornamos capazes de elaborar densas discussões sobre as mais diversas questões. Porém, agora, parece que a evolução está indo por outro caminho, o da retração; estamos descendo (e não mais subindo) os degraus em direção ao nosso ponto inicial: estamos voltando para as expressões curtas, monossílabas e, fatalmente, aos grunhidos. É interessante notar como foi grande a luta pelo direito de livre expressão de idéias ao longo de toda a existência humana e agora que o conquistamos, parece que não temos nada mais a dizer e também não temos muita paciência para ouvir – ou ler. Após longa busca por espaço para se expressar, temos as ferramentas para tanto (tanto através do meio oral quanto do escrito), ferramentas essas (como os blogs) que possuem um alcance praticamente mundial, e, no entanto, o movimento atual está tendendo mais para a comunicação com até 140 caracteres. Uma rápida busca por estatísticas referentes ao Twitter e a blogsfera é suficiente para constatar esse fato: o Twitter possui 300 mil novos usuários por dia, enquanto somente 180 mil pessoas criam novos blogs diariamente. Parece que temos priorizado a comunicação sintética, como se não se perdesse qualidade, conteúdo ou relevância ao resumir algumas páginas em poucas linhas – ou mesmo palavras – de discussão. Mesmo que alguns (como eu) fujam a regra, fato é que a as pessoas preferem ler e escrever textos curtos. Seria reflexo de falta do que falar, de desinteresse pela leitura (seja ela qual for) ou simples conseqüência do acelerado ritmo de vida da hipermodernidade? Acho que a resposta é o somatório das três hipóteses. As pessoas hoje em dia não são mais estimuladas a refletir, a analisar criticar os dados, a formular suas próprias idéias sobre questões que atravessam sua vida. Daí, escrever mais de 140 caracteres sobre elas fica realmente complicado. Um "Discordo completamente da teoria da ‘manipulação da palavra’ porque acho que a palavra não é manipulada." não é síntese, é tudo o que se tem a dizer. Argumentos são inexistentes, pois argumentos se fazem de idéias e idéias são elementos estranhos e desnecessários - o lema hoje é diversão, diversão, diversão. Diversão sem limites, viver para se divertir, se divertir até morrer. Pode parecer simples e natural, mas ter o que dizer sobre algo implica sempre em conhecimentos prévios e capacidade reflexiva, além da habilidade de se expressar verbalmente. Em uma sociedade que cultua o vazio, não faz sentido pensar sobre as coisas que nos cercam, muito menos nos expressar sobre. Leitura grande (densa) para quê? Na cultura do superficial, manter-se superficialmente informado basta para qualquer fim. Afinal, não há tempo para perder se aprofundando em assuntos que daqui a dois minutos já se tornarão ultrapassados. É o estilo de vida da hipermodernidade: a afirmação constante do vazio e do efêmero. Os 140 caracteres servem bem para esse propósito. Nada de sociedade da informação ou do conhecimento, como pontua o pessoal do perenediscussão - sociedade do efêmero e pronto, acho que é a definição mais coerente com a maior parte da população mundial. A proposta de resumir os conteúdos de forma a torná-los mais rápidos de ler é tentadora, sobretudo quando se intenciona ser lido por um grande número de pessoas. É muito mais provável que as pessoas leiam um texto de 5 linhas do que um de 50, sobretudo na internet, onde são muitos os textos que podem interessar e a luz da tela cansa a vista. Mesmo o ilustre Saramago, conhecido por suas frases longas, admite que na internet se aconselha uma certa brevidade da discussão. Entretanto, como ele mesmo frisa, não há regras e “a tão louvada clareza das sínteses é, não raro, enganosa.” Freqüentemente, ao chegar ao final da elaboração de um novo post e observar que ele ultrapassou a barreira da página única (o que é praticamente uma constante nos meus textos), fico a pensar se não deveria resumi-lo de forma a torná-lo mais atraente visualmente à leitura. Cortar algumas informações que possam ser dispensáveis no meu entendimento e ter um texto mais conciso e de rápida leitura. Entretanto, essa opção me é totalmente avessa. Se escrevo longamente é porque na maioria das vezes tenho muito a dizer sobre tal assunto, por tudo o que já li, conversei e pensei sobre o mesmo. Textos com resumos jornalísticos são bons somente para quem procura ouvir um recorte dos últimos acontecimentos. Porque para aqueles que desejarem realmente se informar sobre elas, as poucas linhas serão totalmente descartáveis para qualquer reflexão mais aprofundada. Serão apenas um ponta-pé inicial para que busquemos nos informar em outros locais. Além disso, o resumo é sempre reflexo da opinião do autor sobre o que é ou não relevante para ele entender a questão, e não necessariamente é o mesmo para outros leitores. Esse julgamento de valores é porta de entrada para uma manipulação velada da informação. Basta observarmos, por exemplo, os recentes textos das empresas Globo sobre os candidatos à presidência. “Tesoureiro de Dilma esteve envolvido em escândalo” – e a equipe do Serra (inclusive ele próprio), não esteve envolvida em escândalos? Concisão tendenciosa, não? Num meio impresso como jornais e revistas, ou mesmo livros, é fato que haverá uma limitação física que cerceará as discussões. Porém, na internet, onde a exaustão é o limite, não há porque ser necessariamente sucinto. Cada um deve escrever de acordo com suas intenções e capacidade, e cabe ao leitor identificar o que (para ele) é conteúdo relevante no texto e o que não é. Qualquer leitor habitual sabe que muitas vezes não é necessário ler o texto inteiro para compreender sua mensagem. Muitas vezes o texto traz informações que já temos e conclusões às quais já chegamos – e com a prática as identificamos eficientemente, de forma que podemos nos ater às informações que para nós são novas – e graças ao espaço para o seu bom desenvolvimento o leitor as entenderá mais facilmente. Uma comunicação que intencione ser entendida pelo maior número possível de leitores (leigos ou não) não pode ser sucinta; os seus pontos de vista devem ser bem argumentados, bem explicados para se ter uma certeza maior de que serão compreendidos. Mas, aí, é claro, arrisca-se fazer um texto para um leitor só: o próprio autor. O brasileiro, em especial, é um povo que ainda lê muito pouco. Estamos mais para leitores de capas de jornais e de figuras do que de textos propriamente ditos. Triste realidade a nossa. 80 milhões de brasileiros lêem, em média, dois livros por ano que não os acadêmicos e na maioria das vezes alegam um simples motivo: preguiça. Se ler um livrinho pequeno já os dá preguiça, quem dirá os maiores. Diante disso, aparentemente só resta a comunicação através de 140 caracteres, e ir descendo cada vez mais em direção a um grunhido primitivo. Entretanto, cabe destacar que com o aumento da escolaridade e a melhora da condição econômica das famílias brasileiras, tem se observado, sobretudo entre as crianças e adolescentes, um crescente gosto pela leitura, evidenciado pelo sucesso das vendas de livros destinados a esse público, como as sagas de Harry Potter e Crepúsculo. Talvez tenhamos uma nova geração de leitores ávidos por informação e cultura, que não se satisfaçam com apenas 140 caracteres sobre nada. Vamos esperar.

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