segunda-feira, 21 de março de 2011
Sobre a Internet
Tudo bem, podem até dizer, e de fato se confirma, a internet nos causou uma revolução de costumes e nos costumes. Passamos do real para o virtual, nossas amizades, nossos encontros, nossa vida de certa forma agora acontece ali naquele mundo, é um ponto de encontro, de debate, de discussão, até de fazer amor, quem diria? Sexo virtual. Estamos trocando os prazeres físicos pelas sensações líquidas. Onde está fulano? Espera que vou ver se ele está online, é como ouvirmos isso quase agora que diariamente em nossas conversas em nossas relações na nossa vida pequeno burguesa de cunho sócio digital. Não só uma mudança de costume, hábitos e práticas, mas também uma mudança psicológica.
O mais engraçado é que, nessa imensidão a que chamamos de internet, infinita até, cheia de sons, imagens, pessoas, informações, mas mesmo assim, ainda é pouco para o que sentimentos, nosso tédio, nosso vazio, nossa tristeza, nossa solidão. Confirmando que a gente não se acha nem se encontra com o que vem de fora, mas com o que tem por dentro. Não é conhecendo o mundo que seremos felizes, mas nos conhecendo a nós mesmos e aos nossos próprios sentimentos. O que poucos de nós tem a coragem de fazer e trabalhar. Primeiro a coragem de se reconhecer e depois o esforço para se melhorar.
Pelo contrário, gostamos de distrações, de brinquedos que nos façam esquecer quem somos, porque se olhar a si mesmo é muito duro e cru, é preciso vencer o orgulho para se reconhecer de fato quem se é, se aceitar e seguir adiante. Mas preferimos amenidades, desvios, procuramos lá fora esquecer o que se passa aqui dentro, no coração, na alma, no ser, a nossa angustia de existir e ter de viver para um destino do qual não sabemos o que lá haveremos de encontrar. E a internet nos serve para isso. A nossa maior angustia é saber que toda a nossa vida é em vão, que morreremos. E tudo pelo qual lutamos e temos, nada levaremos.
Mas, pela net, apesar dela. Agora temos informações em excesso, podemos também salientar, estamos com as distâncias menores, com mais contatos, o que não quer dizer amizades e afetos; podemos produzir informações, escrever nossas histórias, mostrar a nossa vida, deixar que algo transpareça no ar, o que não significa que estejamos sendo sinceros e autênticos; como também estamos de alguma forma curando nossa solidão, mas não espantando o nosso tédio, pois tudo que é novo um dia passa a ser velho e passamos a desgostar.
Na internet, em especial nas redes sociais, criamos nossos avatares, ou seja, criamos um personagem, aquilo que não somos de verdade e em realidade. Somos educados, cultos, inteligentes, sinceros, bonitos, desempenhos um papel, damos ao freguês aquilo que ela espera de um produto, com todas as qualidades e garantias, certificações, mas que em verdade, quem compra sabe que não é certo ao extremo, erros podemos acontecer, e acontecem, sempre. Pois nada somos do que internautas nessa grande rede mundial de computadores.
O internauta não tem cor, cheiro, sonho ou problema, nesse mundo virtual moderno ser pouco importa, menos ainda o ter, mas o que podemos mostrar, exibir, produzir, o que podemos arrebanhar, quais os números, seja de contatos, seguidores, estão ao nosso redor. Ficamos surpresos porque a mocinha do tuiter tem 15 mil seguidores, ela agora é uma estrela da rede, pouco importa o que ela seja na vida real e quais os seus defeitos, todos corremos em busca de estar perto, ter contado, faz parte da nossa neurose moderna. Voltando....
Mas também somos egoístas, neuróticos, vaidosos, narcisistas, apenas transferimos nossos defeitos para um suporte virtual. Ainda outro dia conversei com uma amiga e ela me dizia o quanto detestava cumprimentar as pessoas pela manhã em casa, o famoso bom dia, mas no tuiter, era costumava todos os dias ao entrar, fosse pela manhã, pela tarde ou a noite, lá estava a saudar os desconhecidos.
Não somos reais nesse mundo digital, criamos personagens, usamos máscaras, escondemos a poeira em baixo do tapete e só mostramos o que há de melhor em nós, quando a realidade bem mais embaixo, nua e crua. Usamos as melhores frases, as mais lindas citações, claro, copiamos e colocamos, mostramos a nossa melhor foto, com o nosso melhor ângulo, nos vendemos como produto de primeira e um preço barato e simbólico, pois o preço é atrair compradores, seguidores, contatos, simpatizantes com a nossa causa, com a nossa imagem, pois nunca uma imagem individual foi tão valorizada, curtida, apreciada, um quadrinho ali do lado, um sorrisinho bobo, uma farsa de nós mesmos do que somos, da nossa vida própria e sincera.
Por Ronaldo Magella
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