quinta-feira, 24 de março de 2011

Por uma filosofia do buraco


Recordemos o que nos transmite Diógenes Laércio, um historiador da filosofia do segundo século
da nossa era:

“Conta-se que Tales, ao ser conduzido para fora de sua casa por uma velhinha para observar os astros, teria caído num buraco.
Esta teria ponderado: - Tales, não consegues ver o que tens aos pés e desejas conhecer o que está no céu?”
O primeiro buraco filosófico é este, outros vieram depois. Não recuemos diante do paradoxo:
o buraco é o fundamento. O homem perdeu a base. Já não o amparam mitos, linguagem, política – nada.
Até uma empregada ri-se dele. Uma velhinha? Outros garantem
que foi uma jovem.
Sobre o sexo não há divergência. Foi uma mulher.
Enquanto que os homens, de tão profundos, caem no buraco, às mulheres, proverbialmente seres
da superfície, riem confiantes, o solo a seus pés não cede. Com essa teoria, Baudrillard
levanta-se do túmulo para bater palmas. Do herói épico, admirado, aplaudido, esplêndido, superficial, ninguém ria.
Platão e Aristóteles evocam outro buraco, o da humanação.
O espanto abriu um buraco entre o homem e o mundo.
O homem espantado se pôs a contar histórias para explicar os mistérios do mundo em que vivia.
O homem é um animal mítico por isso.
O buraco de Tales veio depois. A cada buraco inesperado, abre-se novo capítulo na história do
pensamento.
O saber nasce da queda. Sabendo que ninguém pode socorrê-lo, o filósofo procura saída por si mesmo.
Fora de casa, Tales pisa em terreno perigoso, vive como exilado. Isso não vale só para Tales,
caracteriza a filosofia.
Exilado, o filósofo ergue os olhos para as estrelas, inquieta-o o espaço que se estende além dos corpos luminosos. Ocanto das musas conferia sentido à vida.
O olhar para as estrelas problematiza os sentidos.
Tales domina as estrelas pelo cálculo, prevê eclipses. Os astros já não determinam a ação dos
homens.
Mas as estrelas não são o fim. O mistério se localiza além das estrelas, além do cálculo, avança por uma região que foge ao cálculo. O olhar à distância abre buracos, mina o solo
em que pisamos, o chão se fende, o andar torna-se inseguro, o abismo se aprofunda, abisma-se no ilimitado.
Com a velhinha, ri-se do filósofo quem não está no buraco: o homem seguro de si mesmo, o bem
sucedido.
Estávamos tão bem... De repente, o buraco.
Surgiu uma estética do buraco. Longe vai a segurança do homem renascentista, do homem que
produzia, iluminado pelo sentimento de eternidade. Aliás, a segurança renascentista
(se é que ela existiu!) não durou nada.
A pintura de Miguelangelo é toda esburacada.
Nem o mundo mítico estava livre do buraco. Aos pés de Perséfone, uma jovem
primaveril, saudável, florescente, abre-se uma fenda, e ela cai nos braços de Hades, o imperador
do mundo das sombras. Que fazer? Perséfone passou a dividir a existência entre a
vida e a morte.
Perséfone poderá ser símbolo de nós todos. Perdendo a segurança do solo, a existência de Perséfone se tornou literalmente unheimlich (sem-lar).
Pisando no vazio, ela perdeu o lar (Heim).
Não nos assuste o buraco. Sai do buraco linguagem renovada, baluarte de mundos renovados.
Para que o ir e vir se revigore, importa que o buraco se mantenha aberto.
O vigor da renovação aproxima a filosofia das artes.
Linguagem que não se renova fecha o buraco, aniquila a vida.
Tales de Mileto já não fala com a segurança dos cantores épicos porque sente o mundo ruir.
Retorna para reorientar, mas sem a segurança que oferecia o mito.
Ao propor como fundamento, em lugar da terra, a água, Tales abandona a segurança para se
instalar no instável.
Aberto está o caminho que passa por Joyce e alaga o terreno em que pisa Deleuze.
O rio que nasceu numa cidade grega da Ásia Menor, atravessado os séculos,
desterritorializa o pensador francês. No trajeto Mileto-Paris, encontramos o homem trágico,
ferido nos pés como Édipo.
O homem é vítima e autor dos buracos em que cai. Na queda, o homem é causa e corpo precipitado.
No buraco, inventa linguagens. Sempre que a consciência do buraco se aprofunda, a linguagem se renova.
A memória nasce para recordar o que perdemos.
Donaldo Schüler

Notas da Luz:
Tudo isso começou porque eu queria comentar a nota do buraco
Era mais fácil eu falar que o buraco faz parte de nossa existência
Tudo começa em um buraco: Saímos de um buraco e vamos para outro.
Depois saímos desse outro e caímos no mundo, que é um imenso buraco
A vida nada mais é que entrada e saída de buracos
E no fim de tudo acabamos em um buraco.
Simples assim...

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