domingo, 20 de março de 2011
Perdas necessárias
O narcisista pode também sentir-se vazio ou deprimido, sempre que perde os objetos idealizados do próprio eu. Tendo feito deles a fonte de tudo o que é poderoso e feliz, sente-se agora desamparado e vazio sem eles. E pode procurar fugir desse vazio recorrendo a drogas ou ao álcool, a frenéticas conquistas sexuais, a passatempos perigosos. Ou pode procurar o refúgio narcisista comum de algum culto religioso, onde o “envolvimento total, a rotina infindável, canto compulsivo e a meditação ritual” ajudam a encher “vazios quase inimagináveis”….
No centro dessas falhas narcisistas existem experiências com pais indiferentes: pais que não podiam ou não queriam ser acessíveis, pais que rejeitavam, desaprovavam ou desapontavam, ou que simplesmente não se interessavam. Cynthia Macdonald, no seu impressionante poema realizações, registra a aflição de uma filha tentando conseguir a confirmação da mãe:
“Pintei um quadro – céu verde – e mostrei à minha mãe.
Ela disse: bonito, eu acho.
Então pintei outro, segurando o pincel com os dentes.
Veja, mamãe, sem as mãos. E ela disse:
Acho que alguém poderá admirar isso, se souber
Como foi feitto, e se se interessar por pintura, o que não é meu caso.
Toque um solo de clarineta no Concerto para Clarineta de Gounoud
Com a Filarmônica de Buffalo. Minha mãe foi ouvir e disse:
Bonito, eu acho.
Então toquei com a Sinfônica de Boston
Deitada de costas e usando os dedos dos pés.
Veja, mamãe, sem as mãos. E ela disse:
Acho que alguém poderá admirar isso, se souber
Como foi feito, e se estiver interessado em música, o que não é meu caso.
Fiz um suflê de amêndoas e o servi à minha mãe.
Ela disse: eu acho que está bom.
Então fiz outro, bagtendo com minha respiração
E servindo-o com os cotovelos
Veja, mamãe, sem as mãos. E ela disse:
Acho que alguém poderá admirar isso, se souber
Como foi feito, e se estiver interessado em comida, o que não é meu caso.
Então esterilizei os pulsos, realizei a amputação. joguei fora
Minhas mãos, e fui até minha mãe, mas antes que eu pudesse dizer
Veja, mamãe, sem as mãos, ela disse:
Tenho um presente para você, e insistiu que eu experimentasse
As luvas azuis, para ter certeza de que eram do tamanho certo."
Às vezes, o confuso narcisista teve pais que ofereciam amor, só que… o amor que ofereciam era do tipo errado. Não era amor pela criança por ela mesma, mas pela criança-como-enfeite, uma flor que os enfeitava e colocava na lapela.
GERALMENTE, NARCISISTAS SÃO FILHOS DE NARCISISTAS.
Os pais narcisistas usam e abusam inconscientemente dos filhos. Faça direito. Sejam bons. Quero me orgulhar de você. Não me irrite. O trato tácito é o seguinte: se enterrar as partes que não gosto, então posso amá-lo. A escolha tácita é a seguinte: perder você ou me perder.
É importante não esquecer que, às vezes pais bastante bons não conseguem se entrosar com o filho, e o prejuízo causado pode resultar de uma infeliz falta de combinação, e não de indiferença, incompetência ou maldade. Mas, seja qual for a causa, a ausência dessas experiências cruciais de imitação e idealização põe em perigo a coesão do eu. Defendendo-se da ameaçã contra esse eu, e tentanto urgentemente compensar a falha, nasce o narcisista patológico.
Um crescimento saudável implica na capacidade de renunciar à nossa necessidade de aprovação, quando o preço dessa aprovação é nosso verdadeiro eu.
Significa ser capaz de renunciar à divisão defensiva, e integrar nosso eu mau com o eu bom.
Significa ser capaz de renunciar à grandeza e funcionar com um eu de proporções humanas.
Significa que, embora possamos, durante a vida, ser afligidos por dificuldades emocionais, possuímos um eu confiável, um senso de identidade.
O que chamamos de senso de identidade é a certeza de que nosso eu mais profundo, mais forte e mais verdadeiro persiste através do tempo, a despeito da mudança constante. É a sensação de um eu verdadeiro mais profunda do que qualquer diferença, o eu para o qual todos os nossos outros eus convergem.
OU SEJA, AS PERDAS QUE ENFRENTAMOS QUANDO NOS VEMOS FACE A FACE COM O FATO DO QUAL NÃO PODEMOS FUGIR:
1) QUE NOSSA MÃO VAI NOS DEIXAR, E QUE NÓS VAMOS DEIXÁ-LAS
2) QUE O AMOR DE NOSSA MÃE JAMAIS SERÁ SÓ NOSSO;
3) QUE AS DORES QUE NOS MACHUCAM NEM SEMPRE DESAPARECEM COM UM BEIJO;
4) QUE ESTAMOS NO MUNDO ESSENCIALMENTE POR NOSSA CONTA;
5) QUE TEREMOS QUE ACEITAR – NOS OUTROS E EM NÓS MESMOS – UM MISTO DE AMOR E ÓDIO, DE BEM E DE MAL;
6) QUE, POR MAIS SÁBIA, BELA E ENCANTADORA QUE SEJA, NENHUMA GAROTA PODE SE CASAR COM O PAI QUANDO CRESCER;
7) QUE NOSSAS OPÇÕES SÃO LIMITADAS PELA ANATOMIA E PELA CULPA;
QUE HÁ FALHAS EM QUALQUER RELACIONAMENTO HUMANO;
9) QUE NOSSO STATUS NESTE PLANETA É IMPLACAVELMENTE EFÊMERO;
10) E QUE SOMOS COMPLETAMENTE INCAPAZES DE OFERECER A NÓS MESMOS OU AOS QUE AMAMOS QUALQUER FORMA DE PROTEÇÃO – PROTEÇÃO CONTRA O PERIGO E CONTRA A DOR, CONTRA AS MARCAS DO TEMPO, CONTRA A VELHICE, CONTRA A MORTE, PROTEÇÃO CONTRA NOSSAS PERDAS NECESSÁRIAS!
Judith Viorst
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