quinta-feira, 10 de março de 2011

Mágoas do Coração

(02 de Abril de 1805/04 de Agosto de 1875)

Mágoas do Coração é o nome de um conto infantil do dinamarquês Hans Christian Andersen, essa figurinha genial que você vê aí em cima. É um conto de apenas duas páginas, que li quando criança, e que influenciou toda minha jornada literária durante a vida: tudo que escolhi para ler a partir de então, tem alguma relação com esse texto. Transcrevo ele abaixo (é bem curtinho,
juro!) como deferência àqueles que acompanham esse blog e têm capacidade e intuição suficientes para entender do que estou falando. Para todos os outros que acharem o texto enfadonho, ou piegas, repito: aquele X no canto direito da sua tela tem o poder de fechar essa janela e de fazer você continuar achando tudo lindo e maravilhoso no seu mundinho cor-de-rosa.

“Bem analisando, o que aqui vamos contar é uma história em duas partes. A primeira parte podia bem deixar de ser contada, mas ela encerra uns conhecimentos prévios, que nos são úteis. Por isso, vá lá!

Passávamos uma temporada no campo, numa quinta, e aconteceu os donos da casa se ausentarem por um dia. Precisamente naquele dia chegou da cidade mais próxima uma madame que trazia o seu cãozinho ao colo. Vinha ela, conforme dizia, oferecer ações do seu curtume. Tinha consigo a papelada, e nós a aconselhamos a meter tudo num envelope e a escrever nele o nome e o endereço do dono da casa: ‘Exmo. Sr. Comissário Geral da Guerra’, etc. etc.

Ela nos ouviu, tomou da pena, deteve-se e pediu-nos que repetíssemos o nome e o endereço, mas devagar. Nós o fizemos, e ela escreveu. Mas no meio de ‘Comissário’ e ‘Geral’ deteve-se de novo, suspirou e disse:

- Sou apenas uma mulher…
Para escrever, pusera no chão o cachorrinho, que rosnava. Trazia-o com tanto cuidado, não lhe era agradável ser posto no chão.

- Ele não morde – asseverou Madame. – Nem tem dentes… É como um membro da família. É fiel, mas irascível, por causa dos meus netinhos, que o irritam. Eles brincam de casamento e querem que ele faça papel de noiva, e isso o cansa, coitado, pois já é velhinho.

A mulher entregou os seus papéis e tomou o cãozinho nos braços. Acaba-se aqui a primeira parte, que bem poderia ter sido omitida.

O cachorrinho morreu! Eis a segunda parte.

Passara-se uma semana. Chegamos à cidade e fomos ao hotel. Nossa janelas davam para um quintal que um tapume de tábuas dividia em duas partes. Em uma delas pendiam couros e peles, frescos e curtidos, e também havia ali todos os materiais necessários para curtir. Era o curtume da viúva.

O cãozinho morrera naquela manhã e fora enterrado no quintal. Os netos da viúva – isto é, da viúva do curtidor de couros, pois o cão morrera solteiro – fecharam a sepultura, uma sepultura tão bela, que devia ser um prazer repousar ali.

O túmulo estava cercado de cacos de pote e coberto de areia. Bem no alto tinham posto uma meia garrafa de cerveja, com o gargalo para cima, o que absolutamente nada tinha de alegórico.

As crianças dançaram ao redor da sepultura, e o mais velho dos meninos, um menino prático, de sete anos, propôs que se fizesse uma exposição da sepultura do cãozinho, para todas as crianças da rua. A entrada não podia ser gratuita: custava um botão de suspensório, coisa que todo menino tinha e que também podia arranjar para as meninas. A proposta foi aprovada por unanimidade.

Todas as crianças da rua, e mais as da rua de trás, vieram e pagaram o seu botão. Muitos meninos usaram naquela tarde um suspensório só, mas viram a sepultura do cachorrinho, o que certamente valia a pena.

Em frente ao quintal do curtume, porém, junto ao portão, uma garotinha espiava. Era pobre e maltrapilha, mas bonitinha, com lindos cabelos cacheados e olhos muito claros e azuis, que dava gosto de ver.

Não dizia uma só palavra, nem chorava, mas olhava o mais que podia, cada vez que era aberto o portão. Ela não possuia um botão, e por isso ficava, triste e magoada, do lado de fora. Ali ficou até todos terem visto a sepultura e ido embora.

Então ela sentou-se no chão, cobriu o rosto com as mãozinhas sujas e começou a chorar. Só ela não vira a sepultura do cãozinho. Era uma grande mágoa, tão profunda e sentida como as mágoas dos adultos.

Nós a vimos do alto. E, vista do alto, aquela mágoa era como muitas das nossas mágoas e as dos outros: perdem a gravidade, e podemos até rir delas. É esta a história.

Os que não compreenderam podem ir comprar ações no curtume da madame.”




Conto infantil do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen
Tradução por Guttorm Hanssen; revisão de Herberto Sales.

Aos amigos, o meu carinho.

Um comentário:

  1. Lindo Hans. Mais uma vez muito bom tomar café aqui com vc. Beijos querida Maria

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