sábado, 19 de março de 2011

Coisas de Bertolt Brecht

A lenda da prostituta Evelyn Roe

1- Veio a Primavera era azul o mar 
Mas ela não sossegou 
Com o último barco ao navio chegou 
A jovem Evelyn Roe 


2- Vestido bem simples cobria seu corpo 
Belo celestial 
Em vez de jóias o ouro só 
Do seu cabelo tão sensual 


3- “Meu capitão, ai leva-me,à 
Terra Santa Anseio por meu Jesus!” 
“Pois vem, mulher, porque bela és tu 
E loucos somos nós!” 


4- “Cristo vos pague que pobre eu sou 
Minh’alma é de Jesus, é do Senhor” 
“Pois dá-nos teu tenro corpo, mulher 
Porque o Deus que tu amas não nos pode pagar 
Pois já morreu na cruz” 


5- Eles navegaram com vento e sol 
E amaram Evelyn Roe 
Que comeu seu pão e bebeu seu vinho 
Mas com lágrimas o amargou… 


6- Dançavam de dia Dançavam de noite 
E o leme ficou ao léu Evelyn Roe era branda e doce 
Eles duros qual pedra e fel 


7- Ela viu primavera e verão passar 
De sapatos rotos de noite andou 
De verga em verga, perdido o olhar 
Uma praia tranqüila quis vislumbrar 
A pobre Evelyn Roe 


8- Dançava de dia Dançava de noite 
Qual doente enlanguesceu 
“Meu capitão, quando afinal 
Terra Santa verei eu?” 


9- Nas coxas o capitão sorriu 
E beijando-as lhe falou: 
“Quem disso tem culpa não sou eu 
E sim a Evelyn Roe” 


10- Dançava de dia Dançava de noite 
Qual cadáver ela ficou 
E do capitão ao grumete, enfim 
Todo mundo dela se fartou 


11- Trapos cobriam seu corpo já gasto ferido inchado 
E grenhas imundas a lhe cair 
No rosto desfigurado 


12- “Jamais te verei, Cristo meu Jesus 
Com meu corpo pecador 
Tu não podes com puta 
Te encontrar 
Com esta pobre mulher, 
Senhor!” 


13- Da popa à proa ela vagueou 
Coração e pés a sangrar 
Numa noite quando ninguém a viu 
Ela se atirou no mar. 


14- e a onda glauca a acolheu 
E o seu corpo alvo tornou 
E agora bem antes do capitão 
Terra Santa ela alcançou 


15- Quando enfim chegou ao 
Paraíso São Pedro o portão trancou Deus disse: 
“Não vou acolher no céu a puta Evelyn Roe” 


16- Também quando ao Inferno ela chegou 
A porta na cara levou 
E o diabo gritou: 
“Não quero aqui a beata Evelyn Roe” 


17- Então ela anda de déu em déu 
Ao vento e ao luar vagueando 
Em verdade vos digo eu a vi passar 
Tarde da noite… 
no campo a errar… 


18- Às tontas, sem paz, sem jamais parar 
Alma penada 
Sem morada 
A pobre Evelyn Roe 
Bertolt Brecht 

Esse é o que mais me toca e emociona, pois foi através dele que descobri Bertolt Brecht. Além de me trazer muitas lembranças de uma época muito dificil, eu morava em Goiânia (onde nasceu meu filho e pra onde fui assim que me casei com meu terceiro e atual companheiro) quando a ouvi pela primeira vez, em uma extinta rádio chamada "Companhia", que foi, uma das melhores coisas que conheci em Goias. Em um programa chamado "Companhia no bar" era a noite, e tocava só Blues e entre um Blues e outro era recitado na voz de um locutor impar, as mais belas poesias...
Muitas recordações, por essas e por outras que essa poesia mexe comigo.

 
O Analfabeto Político
O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
Bertolt Brecht

Nota de Maria: O dia em que o povo brasileiro se der conta disso, aí sim ocorrerá uma verdadeira reforma política nesse País. O poder esta na mão do povo pena que ele ainda não descobriu como usa-lo. E a idéia dos favorecidos por essa ignorância é que ele não descubram nunca.

  AULA DE AMOR
Mas, menina, vai com calma
Mais sedução nesse grasne:
Carnalmente eu amo a alma
E com alma eu amo a carne.
Faminto, me queria eu cheio
Não morra o cio com pudor
Amo virtude com traseiro
E no traseiro virtude pôr.
 Muita menina sentiu perigo
Desde que o deus no cisne entrou
Foi com gosto ela ao castigo:
O canto do cisne ele não perdoou.
Bertolt Brecht

Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito.
Bertolt Brecht

 

PARÁBOLA DE BUDA SOBRE A CASA INCENDIADA
 Gautama, o Buda, ensinou A doutrina da roda da cobiça, à qual estamos atados, e aconselhou Livrar-se de toda cobiça e assim Sem ambição penetrar no Nada, que ele denominou Nirvana. Perguntaram-lhe então um dia seus alunos: Como é esse Nada, mestre? Todos nós queremos Livrar-nos de toda cobiça, como nos aconselhas, dize-nos porém Se esse Nada, no qual então penetraremos É talvez como o ser-um com tudo criado Ao deitar-se alguém na água, corpo leve, ao meio-dia Sem pensamentos quase, com preguiça deitado na água, caindo No sono, mal sabendo então que puxa a coberta Afundando rapidamente. Se esse Nada, portanto É assim contente, um bom Nada, ou se esse teu Nada É simplesmente um Nada, frio, vazio, sem sentido. Longamente silenciou o Buda, e disse então displicente: Nenhuma resposta para vossa pergunta. Mas à noite, quando haviam partido Sentado ainda sob o pé de fruta-pão, contou o Buda aos outros Aos que não haviam perguntado, a seguinte parábola: Há pouco tempo vi uma casa. Queimava. A chama Lambia o telhado. Aproximei-me e notei Que ainda havia pessoas dentro. Cheguei à porta e gritei-lhes Que o telhado estava em fogo, incitando-as assim A sair rapidamente. Mas as pessoas Pareciam não ter pressa. Uma delas me perguntou Enquanto o calor lhe chamuscava a sobrancelha Se não soprava o vento, se não havia uma outra casa E coisas assim. Sem responder Afastei-me novamente. Estes, pensei Têm que queimar, até parar de fazer perguntas. Em verdade, amigos Àquele que ainda não sente o chão bastante quente Para trocá-lo por qualquer outro, em vez de lá ficar, a este Nada tenho a dizer. Assim fez Gautama, o Buda. Mas também nós, não mais ocupados com a arte de suportar Antes ocupados com a arte de não suportar, e apresentando Sugestões várias de natureza terrena, e aos homens ensinando A desvencilhar-se dos tormentadores humanos, achamos que àqueles que À vista dos iminentes esquadrões de bombardeiros do Capital gastam tempo a perguntar Como pensamos em fazer isto, como imaginamos aquilo E o que será de suas economias e de seus trajes de domingo após uma reviravolta Nada temos a dizer.
Bertold Brecht Poemas – 1913-1956 (pg. 171-72, ed 34, trad Paulo César Souza)

 "Apenas quando somos instruídos pela realidade é que podemos muda-la." BertoltBrecht

  Aos que virão depois de nós 
I Eu vivo em tempos sombrios. Uma linguagem sem malícia é sinal de estupidez, uma testa sem rugas é sinal de indiferença. Aquele que ainda ri é porque ainda não recebeu a terrível notícia. Que tempos são esses, quando falar sobre flores é quase um crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça? Aquele que cruza tranqüilamente a rua já está então inacessível aos amigos que se encontram necessitados? É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver. Mas acreditem: é por acaso. Nada do que eu faço Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome. Por acaso estou sendo poupado. (Se a minha sorte me deixa estou perdido!) Dizem-me: come e bebe! Fica feliz por teres o que tens! Mas como é que posso comer e beber, se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome? se o copo de água que eu bebo, faz falta a quem tem sede? Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo. Eu queria ser um sábio. Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria: Manter-se afastado dos problemas do mundo e sem medo passar o tempo que se tem para viver na terra; Seguir seu caminho sem violência, pagar o mal com o bem, não satisfazer os desejos, mas esquecê-los. Sabedoria é isso! Mas eu não consigo agir assim. verdade, eu vivo em tempos sombrios!

 II Eu vim para a cidade no tempo da desordem, quando a fome reinava. Eu vim para o convívio dos homens no tempo da revolta e me revoltei ao lado deles. Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra. Eu comi o meu pão no meio das batalhas, deitei-me entre os assassinos para dormir, Fiz amor sem muita atenção e não tive paciência com a natureza. Assim se passou o tempo que me foi dado viver sobre a terra.

 III Vocês, que vão emergir das ondas em que nós perecemos, pensem, quando falarem das nossas fraquezas, nos tempos sombrios de que vocês tiveram a sorte de escapar. Nós existíamos através da luta de classes, mudando mais seguidamente de países que de sapatos, desesperados! quando só havia injustiça e não havia revolta. Nós sabemos: o ódio contra a baixeza também endurece os rostos! A cólera contra a injustiça faz a voz ficar rouca! Infelizmente, nós, que queríamos preparar o caminho para a amizade, não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos. Mas vocês, quando chegar o tempo em que o homem seja amigo do homem, pensem em nós com um pouco de compreensão.
(Bertolt Brecht)

  “The Good Woman of Setzuan” "
"A Alma boa de Setsuan"
Amei essa peça e recomendo.

  Chaussestrasse, 125, Berlim. É onde repousa a casa dos últimos anos de vida de Bertolt Brecht. Gostaria de visitá-la para sentir o pulso íntimo e intelectual de um dos mais influentes dramaturgos do século passado. Brecht viveu lá somente três anos, entre 1953 e 1956, com Helene Weigel, sua mulher, companheira e também atriz principal de todas as suas peças que estreavam. Brecht e Weigel formavam um casal de artistas bem conhecido, respeitado e admirado mundo afora. Em 53, eles voltavam para a Alemanha depois de um longo exílio. Voltavam, pois tiveram uma boa oportunidade de trabalho proposta pela Alemanha Oriental, na época controlada pela União Soviética. Regressavam, pois precisavam se expressar na sua língua e cultura natal. Nascia a contribuição de Brecht ao Berliner Ensemble, teatro que funciona ainda hoje e já foi dirigido por Heiner Muller.

  Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria do que a morte.
Bertolt Brecht do poema Os dias da Comuna

  Lápide de Weigel e Brecht

2 comentários:

  1. Vejam..vale a pena\; https://www.facebook.com/alendaevlynroe

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  2. Valeu a dica, visitei a página e vi os vídeos. Bem legal!
    Esse poema é realmente inspirador, daria uma grande peça de teatro ou um curta bem interessante. Sorte e sucesso com o trabalho de vocês.
    Obrigada pela visita a casa é nossa.

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