quinta-feira, 3 de março de 2011

Auto-perdão



Hoje eu me perdôo por todos os radicalismos que cometi. 
Também me perdôo pelas vezes em que fui crítica demais, exigente demais, perfeccionista demais, severa demais e chata demais. Comigo e com os outros. Me perdôo pelas pessoas queridas que eu magoei e afastei da minha convivência nas vezes em que a minha intolerância prevaleceu. E peço perdão a todas estas pessoas, que ainda moram no meu coração, por, com o meu excesso de zelo ou de cobranças, tê-las feito ir embora. Temporariamente ou para sempre. Hoje é dia de me perdoar por todas as falhas que eu já cometi e que sei que ainda irei cometer pois, afinal de contas, eu não sou perfeita. Hoje eu também me perdôo pelas vezes em que julguei precipitadamente pessoas ou situações. E peço perdão a quem eu feri com tais julgamentos, que hoje sei o quanto podem ter sido por demais cruéis e dolorosos. Mas eu também me perdôo por eles porque sei que, à época em que foram emitidos, talvez eu não tivesse total consciência dos danos que eles causariam. Maturidade não vem do dia para a noite, como se sabe. Hoje eu me perdôo também pelas inúmeras vezes em que procrastinei porque estava por demais envolvida com arte, música, cinema, fotografia ou livros. Me perdôo também pelas vezes em que estive muito envolvida com as coisas do espírito e pouco envolvida com as da matéria - leia-se trabalho. No fim das contas, percebo que se eu não tivesse me dedicado mais as primeiras, as segundas talvez não tivessem ficado tão boas. Então, eu mereço o meu próprio perdão. E o do mundo também. Mas não estou nem aí se o mundo não quiser me perdoar. Porque hoje o que me importa é apenas o perdão que eu sou capaz de me dar. Porque é ele que me faz leve e me tira um fardo monstruoso das costas. É esta minha capacidade de me perdoar – adquirida com muita análise e auto-análise – que hoje me faz caminhar mais serena. Ando devagar porque já tive pressa e levo este sorriso porque já chorei demais, amigos. Hoje olho sempre pra frente porque o meu auto-perdão me deixou livre das culpas que eu carregava. Sem elas, não preciso olhar mais para o passado com lágrimas escorrendo ainda pelo rosto e ficar me remoendo por coisas que já passaram e que não têm mais nenhum sentido. Aliás, cansei de chorar, cansei de sentir culpa, cansei de me remoer, de me doer por besteiras e de ser vítima. Eu sou uma vencedora e ponto final. Há ainda feridas que não cicatrizaram. Mas estas eu deixo aos cuidados do tempo, o melhor cicatrizante que existe. Porque entendi, finalmente, que tudo é aprendizado. Me perdôo também pelas vezes em que me permiti ficar deitada no sofá em completo ócio. E este nem sempre era criativo. Nestas vezes, eu com certeza estava sobrecarregada demais com os meus problemas ou com os do mundo, pois sempre tive a Síndrome de Atlas. Por isso, me perdôo sem remorso algum, pois eu realmente precisava de uma pausa. De mil compassos. Hoje eu me perdôo até pelas vezes em que devorei sozinha um panetone ou uma barra inteira de chocolate. E também pelas vezes em que gastei o que podia e o que não podia em saias, vestidos e sapatos. E bolsas. Talvez nestas vezes meu corpo estivesse gritando por serotonina. E minha auto-estima por um agrado. Tem dias em que a alma precisa de um carinho que só a gente é capaz de se dar. Então, eu me perdôo porque me acarinhei. Fiz um afago no meu espírito e o resultado disso é que eu fui mais feliz. E pessoas felizes não fazem mal para o mundo. Assim, sem sombra de dúvidas, eu realmente mereço o perdão. Hoje eu me perdôo também pelas vezes em que joguei tudo pro alto. Porque agora, com o olhar distante das situações em que tive de fazer isso, eu consigo perceber que em todas elas abandonar tudo sem medo e sem olhar pra trás foi à melhor coisa que eu fiz por mim mesma. Mesmo que para o mundo eu tenha parecido uma inconseqüente e completa irresponsável. Hoje sei que agi motivada pelo respeito a mim mesma, já que o mundo nem sempre me respeitou como eu merecia. E fui sim altamente responsável - com os meus sentimentos. Não deixei que me explorassem que me maltratassem ou que exigissem de mim algo que eu não poderia jamais oferecer. Dei um basta definitivo no silencioso e destrutivo assédio moral. E também, nestes casos, agi motivada pela auto-proteção. Nada mais justo então, que eu me perdoe. Hoje me perdôo também pelos dias – e foram muitos - em que deixei de sair de casa, e em que não vi sequer a luz do sol porque passei muitas madrugadas acordada. As minhas tais madrugadas insones. Nestes dias, ou melhor, noites, eu estava em intenso processo criativo. Aliás, foram nestas inúmeras noites em que eu mais produzi. Nelas, eu estive lendo, pesquisando ou escrevendo. E refletindo. Foram também nestas noites em que eu mais adquiri conhecimento. Intelectual e espiritual. Então tudo bem, estou perdoada por não ter ido para a balada ou por não ter dormido cedo para ficar acordada lendo Clarice, Pessoa e Tom Wolfe. Ou lendo sobre as vidas de Siddharta Gautama e de São Francisco de Assis. Ou simplesmente quando estive passeando ao léu madrugada adentro pela highway da superinformação. Sem saber ao certo onde é que eu queria chegar. Mas sempre caindo em sites por demais interessantes. (E foram eles que me inspiraram a criar este espaço). E hoje é o dia em que eu peço perdão para o planeta. Por não ter ainda plantado uma árvore. Nem escrito um livro (mas isso farei em breve, só não prometo ter filhos). Peço perdão ao planeta porque eu ainda não faço coleta seletiva (sim, minha gente, é um absurdo, eu sei, mas, por favor, me perdoem!). Em contrapartida, sei que eu não preciso pedir tanto perdão assim ao planeta porque as minhas emissões de carbono são pouquíssimas. Ando muito a pé e (só) utilizo o transporte coletivo. E as lâmpadas da minha casa são todas econômicas. Sem contar que evito o desperdício de alimentos ao máximo. Mas, quando ele é inevitável, peço perdão também por ele. (Aliás, aprendi a pedir perdão pelos meus desperdícios quando eu frequentava a Mahi Kari). E antes de incluir uma nova peça de roupa no meu guarda-roupa, sempre me lembro de doar as que já não uso mais. Sim, sou recessionista e com muito orgulho! E as sacolinhas plásticas que trago do supermercado eu sempre reutilizo. Mas também sou adepta das ecobags. Estas eu adoro. Peço perdão por ainda não ter adotado um casal de gatos que deve estar urgentemente precisando do amor que eu sei que já tenho condições de dar. E pelas margaridas que não voltei a cultivar (não as de papel, as vivas mesmo) por pura preguiça. (Aliás, tenho de pedir perdão pela preguiça que aos poucos estou deixando de lado. Outra vitória da minha análise!). Também peço perdão ao planeta pelos banhos demorados que gosto de tomar de vez em quando. Os gelados, que servem para me revigorar, levar embora as tensões e energias ruins e me preparar para mais uma batalha a vencer. Peço ainda perdão pelas vezes em que, por conta da TPM, fui sarcástica além do limite e excessivamente mal humorada. Ah, também peço perdão pelas vezes em que estive mal humorada por estar com muito sono ou fome ou com excesso de trabalho. Pelo menos eu sei que são só nestas condições em que eu fico de mau humor. Por isso, eu me perdôo também por elas. Mas não posso esquecer de pedir perdão pelas vezes em que eu não pude ouvir com paciência as pessoas que vieram até mim precisando de apoio. Mas eu me perdôo também por estas situações pois sei que, nas vezes em que não ofereci meu colo, é porque eu também estava precisando de um. E, por fim, hoje eu me perdôo por estar aqui escrevendo este texto em vez de estar trabalhando para cumprir a deadline apertada que me impuseram. Afinal de contas, o mundo precisa de mais perdão e eu sei que as pessoas que vão ler este texto hoje talvez irão tentar perdoar mais aos outros, pedir mais perdão por seus erros e se perdoar mais também. Pelo menos, isso é o que eu espero – sou uma sonhadora e otimista incorrigível e ainda acredito no ser humano. E acho que esse mundo tem conserto sim. (Minha trilha sonora de hoje é “Imagine Eu só não me perdôo ainda por uma coisa: pelo meu auto-boicote e pelo medo que muitas vezes me impede de ir adiante. Este medo irracional que me paralisa. Mas quer saber? Medo, eu não te escuto mais. Você não me leva a nada. E é por isso, medo, que você não merece o meu perdão. Para mim, o perdão é como um candeeiro que ilumina a vida. Acenda o seu. Hoje o tempo voa, amigos. Escorre pelas mãos. Vamos nos permitir? Como se pode notar, eu passei este texto inteiro me perdoando ou pedindo perdão para o mundo. E isto não foi sem motivo. Tenho plena consciência de que sou muito mais devedora do que credora do perdão alheio. Mas hoje eu também libero o meu perdão a qualquer pessoa que já tenha me feito chorar, sentir raiva, mágoa ou qualquer sentimento negativo. Porque sei que, em grande parte das vezes, nós sofremos não pelo que o outro nos causa, mas pelas expectativas que criamos em cima das pessoas. E também porque, afinal de contas, quem sou eu para não perdoar se eu também já tive uma pedra em minhas mãos em vários momentos da minha vida? O perdão, quando sincero, é libertador. eu quero, com o meu perdão, inaugurar um novo tempo para mim mesma. By Shala Rina

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