A dor que sentimos pelas pessoas que amamos faz parte da felicidade que tivemos. Ambas são condição de ambas.
Uma historinha sobre a vida do escritor C.S. Lewis.
Essa história aconteceu nos últimos anos de vida, quando o celibatário escritor foi surpreendido por Joy Gresham, uma leitora americana, que cruza o Atlântico para fugir de um casamento arruinado. Traz o filho, que traz os livros para Lewis assinar.
Conhecem-se. Tornam-se amigos. E casam por conveniência: Joy necessita da cidadania britânica para ficar no país, Lewis acede ao pedido. Tudo em segredo. Subitamente, Joy adoece.
Grave, gravemente. Lewis sabe que a vai perder. E nessa certeza sabe também, pela primeira vez, que está profundamente apaixonado por ela. Casam novamente. Desta vez, aos olhos de Deus e dos outros. Joy parte pouco depois. Essa história de amor tardio subiu aos palcos de Londres e estará em cena até 15 de dezembro. Se passarem pela cidade, não hesitem: Charles Dance (Lewis) e Janie Dee (Joy) retomam "Shadowlands", a notável peça de William Nicholson que Anthony Hopkins e Debra Winger já ofereceram em filme homônimo. Existem diferenças, claro. A peça tem o humor anárquico que o filme ignora, ou desconhece.
O filme tem o dramatismo sóbrio que só os grandes planos permitem. Mas no palco ou na tela, a trágica ironia de Lewis é a mesma: a ironia de um pregador que disserta teoricamente sobre a importância salvífica do sofrimento; até o dia em que a teoria regressa para o testar com a mais brutal das experiências humanas. E com uma pergunta simples mas fundamental: por que amar se perder dói tanto? A resposta, a única possível, é dada por Joy na peça, quando a morte assombra um breve momento de intimidade terrena. "A felicidade de agora será parte da dor de então". Precisamente. E eu, mudo e parado na platéia do Wyndham's Theatre, sorrio por dentro e agradeço novamente.
Na infância, Lewis oferece o encantamento de um outro mundo; na idade adulta, oferece a única certeza deste. A dor que sentimos pelas pessoas que amamos faz parte da felicidade que tivemos. Porque ambas são a condição de ambas.
JOÃO PEREIRA COUTINHO - folha SP
Pois é, como eu sempre digo: o amor salva, o amor cura e ainda que aja a possibilidade de dor e sempre há, amar sempre vai valer a pena. Piegas? Pode ser, mas é assim que realmente penso.
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