O meu amor é furtivo
O meu amor é furtivo como o amor de um pobre.
Qualquer um pode roubá-lo.
E eu terei de deixá-lo.
Por isso, rio silente, por isso, minha suave colina, não lhe posso chamar amor simplesmente.
Mas tu, colina de ouro, e tu, rio indolente, sabeis que o meu amor é mesmo um grande amor.
O perigo odiado não existe para já?
Mas vós sabeis, amigos, que no meu coração está.
A chorar me vereis, ó vós, sempre felizes, não como agora choro, não de felicidade.
Sandro Penna No Brando Rumor da Vida Assírio & Alvim 2003
Desde aquele dia não movi as peças no tabuleiro.
Jorge Luis Borges
Em suma, todo o problema da vida é este:
como romper a própria solidão, como comunicar-se com os outros.
Cesare Pavese
Multidão Uma folha tomba do plátano, um frêmito sacode o cimo do cipreste, És tu que me chamas. Olhos invisíveis sulcam a sombra, penetram-me como à parede os pregos, És tu que me fitas. Mãos invisíveis nos ombros me tocam, para as águas dormentes do lago me atraem, És tu que me queres. De sob as vértebras com pálidos toques ligeiros a loucura sai para o cérebro, És tu que me penetras. Não mais os pés pousam na terra, não mais pesa o corpo nos ares, transporta-o a vertigem obscura És tu que me atravessas, tu.
Ada Negri
Lodi, Milão, Itália – 3 de Fevereiro de 1870 + Milão, Itália – 11 de Janeiro de 1945
"VIDA E MORTE"
Senhor, eis aqui minha biografia, meu livro de vida...
É documentário, e confesso que é muito difícil escrever a vida como vós quereis...
É difícil, Senhor, escrevê-la quando não se é escritor, quando nunca se aprendeu tal ofício.
Mas a vida não se aprende: Toda vida é um romance novo, único no gênero, sempre obra de primeira mão. É difícil, Senhor, não poder copiá-lo, pois vós não aceitais plágios. É difícil, Senhor, não poder corrigi-la. Dela não podemos arrancar páginas mal escritas, ou apagar alguma coisa. O que escrevi ficará sempre escrito. O que eu posso é manifestar meu arrependimento, escrevendo páginas melhores. É difícil, Senhor, seguir este ritmo da vida que me leva inexoravelmente adiante... Mas obrigado, Senhor, por retratar-me das páginas passadas em cada nova página que escrevo. É difícil, Senhor, ir virando as folhas, dia por dia, na angústia de não saber o dia da entrega do manuscrito... Mas não seria, Senhor, mais angustioso ainda saber o dia e a hora? É difícil, Senhor, não sabermos quantas folhas em branco nos restam para desenvolver satisfatoriamente o tema... Um dia qualquer vós me tomareis a caneta das mãos e escrevereis debaixo do meu último rabisco: Fim. É difícil, Senhor, não poder reclamar, então: "Ainda não terminei...", porque há sinfonias inacabadas que são obras primas e há existências longevas que nunca acertaram o tema. Tive pena do tempo perdido... Mas, Senhor, não tivestes minha vida, a cada instante, em vossas mãos?
Rabindranath Tagore





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