terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A complex fashion for a simple man...
Um homem simples.
Sim, detrás da gola alta, encontra-se um homem marcadamente simples.
Originou-se, como a maior parte dos homens simples, da confluência das horas vagas de dois seres humanos -- um de sexo masculino, outro de sexo feminino -- dotados de certa sanha de criar e incapazes de se utilizar da mesma de forma menos perniciosa. Não posso responder pelo resto da humanidade, mas de minha parte, sei que seria muito mais feliz se fosse um quadro ou um livro ou uma canção. Infelizmente, não foi isto que se deu -- em setembro de 1985 nasci, e nasci uma pessoa, não uma obra de arte. Eu tinha olhos, ouvidos, pernas, braços -- e uma cabeleira um tanto basta para alguém que havia acabado de aportar no mundo. Em uma palavra, nasci sem defeitos. Esfregando meu perfeito nariz nesta aparente ausência de manchas, mamãe tentou durante anos me convencer de que tudo estava bem. "Pense", ela costumava argumentar, "você poderia ter nascido sem as pernas". Foi desta forma que ela pretendeu sustar a germinação de todas as minhas angústias; instando-me a imaginar como seria a vida sem um braço. Malgrado reconheça suas boas intenções -- todas as mães são bem-intencionadas, daí o inferno estar transbordando de mães -- devo admitir... não foi um método muito eficaz. Precisava de mais do que uma amputação metafórica para enxergar a beleza desta vida; e aliás, como a maioria dos homens simples, ainda preciso.
Como a maioria dos homens simples, não logrei escapar a estes amores pequenos, fundamentais, como o amor a quem teve o atrevimento de me gerar. Como a maioria dos homens simples, consegui tão-somente escapar ao amor pela humanidade. De todos os outros, sou feliz prisioneiro. A liberdade me apavora, em verdade -- mas não a minha, a dos outros. A minha ainda pode ser contida. Como a maioria dos homens simples, ainda acho que um dia serei alvejado no meio da rua por algum concidadão ensandecido pela ciência de sua própria liberdade. "Erostrato". O que mais me assusta é que eu não poderia culpá-lo, não realmente. Como a maioria dos homens simples, já tive ganas de erradicar minha própria espécie. Só não o fiz por delicadeza. Enfatuo-me por conta disso. Tenho-me na conta de um grande sujeito apenas porque nunca matei ninguém, é esta a verdade.
A lógica da destruição, entretanto, sempre oblatará alternativas cabíveis ao homem simples. No meu caso, é a arte. Quando escrevo, escrevo sobre pessoas mortas. Sobre pessoas que morrerão. Sobre pessoas que já morreram. Os demolidos, os desbaratados, os nulos. Eles vêm até minha mão para morrer. Para continuar morrendo, para começar a morrer. E se esta não é exatamente a maneira mais nobre de apreender a arte... bom, pelo menos não estou fazendo filhos por aí, nem baleando estranhos.
Este sou eu. Simples. Transfiguro os outros em fantasmas porque só assim me é possível possuí-los. Simples. Penetram-me, escolhem mesas, pedem bebidas. É sempre ´happy hour´
Ismar Tirelli Neto
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Como se livrar da tentação?
Cedendo a ela Oscar Wilde Mas desde que ela valia muito a pena, não perca seu tempo com tentação...
-
Quer fazer seu feitiço agir mais rápido e de forma mais intensa? Pois então você deve aderir ao uso da Tabela de Hora Planetária! Basicam...
-
Um novo bebê! Não, não é o que parece! Gente eu estava pensando seriamente em ter mais um bebé, mas depois de conhecer essas coisinhas m...
Nenhum comentário:
Postar um comentário