quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Os anos 70



Quem viveu intensamente os anos 70 esta condenado a não se lembrar deles. 
Pelo menos não inteiramente. Há uma ironia tão grande nisso, uma ironia tão... anos 70... 
Porque foi uma década de experiências, com muito pouca intermediação. Não importava, realmente se havia ou não registro, memória, inventário do que se experimentava. A captura no momento fugaz, em toda sua intensidade, era privilégio e tormento de cada uma, de cada um. Não eram experiências para serem levadas em ata. Eram para serem carregadas no mais fundo da alma. 


Uma coisa interessante acontece quando nos abandonamos assim tão completamente ao vôo do instante: ele assume as características do sonho, algo muito nítido, guardado numa outra realidade que não conseguimos mais habitar inteiramente mas temos certeza que existe, existiu. Na nitidez da distância, os anos 70 parecem com uma importância que não se suspeitava: as raízes das delicias e dos horrores do novo século estão inteirinhas ali. 


O triunfo do corpo o terror político. Interatividade e crise do petróleo. Fartura e escassez. Aiatolás no Irã, um mentiroso na Casa Branca. A possibilidade de uma sociedade mais justa, com mais lugar para vozes de mulheres, homossexuais crianças, jovens, místicos, alternativo e a realidade de uma sociedade em que nada disso era se quer o esboço da vontade. 


No Brasil e no mundo, acontecimentos claros balizam as duas décadas que são os 70. a primeira delas é o rescaldo do 60 e seu eixo de tensão é polarizado caretas de um lado, desbundados do outro. Sistema e Alternativa. Superfície e Subterrâneo. No Brasil o subterrâneo é mais embaixo: 1970 a 1974 vive-se sob a sombra do AI-5 no governo Médici, no qual quase tudo é proibido . 


No exterior os primeiros 70 são os anos de Nixon a agonia do militarismo americano no sudeste asiático. Watergate, a derrota no Vietnã e a escalada do poder da Opep marcam o final da primeira década lá fora. E era uma psicodélica: as drogas em uso são as da calma da reflexição da viagem. Uma década de silencio forçado ou escolhido. A segunda década é a pré estréia dos 80. 


A diversão é sua palavra de ordem, a dança, sua expressão. No Brasil são os anos da abertura, culminando com a anistia e o governo Figueiredo. A tensão se desfaz em vários núcleos: discotequeiros e punks, roqueiros e naturebas, surfistas e Playboys. E era uma trincada: a cocaina torna-se onipresente a partir de 75, mudando tudo – a percepção do tempo, a estrutura do crime, a intensidade e o ritmo da musica, as deformações do afeto a distribuição do poder nas cidades. 


É uma década de ruído. Não é necessário nem ter vivido então ou sequer ter nascido por lá. O tempo fica e esta e esta sempre disponível. 
Nós é que passamos. 
Se liga nessa. 
Ana Maria Bahiana Em Almanaque dos anos 70 
Um dos meus preferidos


 “Não é uma estrada, é uma viagem” (Luis Galvão e Moraes Moreira 1969)

3 comentários:

  1. Tardei mais cheguei, já tinha vindo várias vezes só não conseguia postar comentário nem te seguir amada. Tive que fazer um email novo.
    Valeu o tempo é curto mas sempre que possivel faço uma visitinha nessa casa.
    Deixa um 15 anos com meu nome heeein!!!!
    E nada de beber depois completar com alcool maluca!
    Beijão "minha" Luz

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  2. década de 70 o bicho era diferente pulsava......
    Pulsava menina.
    Leia mais leia mesmo vale a pena.

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  3. Estou tão anos 70 que só fui achar seus agradáveis comentários agora. Nem lembro do que você está falando.Saca,algo assim anos 70. Você não demorou, sempre chegamos na hora certa no lugar certo, nem um segundo antes nem um segundo depois. Não bebo mais destilados. Beijão moço

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