
O outro.
Esta estranha incógnita.
O outro é sempre um mistério. Após um ano de divã, ela finalmente assimilou essa verdade.
Tal qual a tabela periódica, por mais que a decorasse, tudo ainda era muito complicado para ela, que sempre achou que seria fácil decifrar este estranho universo que se chama O outro. Agora não.
Ela finalmente entendeu que cada um é mesmo um universo em si. Um universo completo, cheio de seu próprio repertório. Todo homem e toda mulher é uma estrela, já dizia Alester Crowley.
O ensinamento do mestre só agora lhe fazia sentido, finalmente. Mas ela transcendeu o mago. Em sua cabeça, todo homem e toda mulher não é apenas uma estrela. Não é nem sequer um universo. É muito mais do que isso. É uma via láctea inteira, é um multiverso, cheio de infinitas possibilidades. O outro é complexo.
É cheio de fractais. É repleto de elementos químicos. A tabela periódica quase que completa é possível de ser encontrada no outro. Ela percebeu que se tentasse compreender e aceitar a complexidade do outro, mais do que aceitar a diferença, mas aceitar a complexidade do outro em si, talvez conseguiria evitar algumas das inúmeras e inevitáveis colisões com o outro. Os universos ao redor dela. Afinidade e repulsão, os opostos se atraem, os semelhantes se repelem. As cargas elétricas. A física e a química nunca haviam feito tanto sentido em sua cabeça como agora. Há no outro múltiplos caleidoscópios. Físicos, psíquicos, emocionais.
E quando ela finalmente compreendeu tudo isso, descobriu que no fundo o que ela busca tanto no outro não é a união, mas a intersecção. Das semelhanças e das diferenças. Há no outro um quê de espelho e repulsa. Buscamos no outro a identidade, mas também fugimos dela quando essa mesma identidade é parecida demais com a nossa. Se o parecido nos atrai, o muito parecido, o quase igual, nos mete medo.
Nos repele. Como se dá com as cargas elétricas iguais na física. É estranho.
Mais que do diferente, é do muito igual que fugimos. Talvez por não suportarmos saber de fato quem e como somos. Talvez porque não suportamos o brilho da nossa própria estrela.
Ou o peso do nosso universo inteiro.
Eu não sou eu Nem sou o outro Sou qualquer coisa de intermédio Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim Para o outro
Mário de Sá Carneiro, poeta português
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