Não existem muitas maneiras de começar a escrever esse texto. A mais segura foi a que escolhi. Abri uma garrafa de uma beberagem rústica que ganhei de aniversário: Lagavulin, um malte de 16 anos. Em pequenas doses é administrável. Em grandes é alucinógeno. Decidi pelo caminho intermediário. Aquele que me levará a um contido nirvana. E a cada vez que enrubescer, mais pela vergonha das palavras que imprimo na tela, do que pelo efeito dos gases alcoólicos, esticarei o braço na direção do copo e me servirei um pouco mais desses sentimentos que, um dia foram a minha razão de viver. Em 1983 eu amei. E fui amado. Mas por que não nos casamos? Lembro de uma pergunta que você me fazia: como você pode vulgarizar tanto o que sentimos um pelo outro? Eu simplesmente não conseguia acreditar que pudesse ser tão amado como fui. Não me sentia merecedor. Como em “Sonhos De Um Sedutor”, de Woody Allen, quando numa cena em que ele tenta salvar uma garota do assédio de dois sujeitos musculosos, Woody grita corajosamente para eles: Parem com isso! Em seguida, percebendo que cometera um erro, Woody olha para trás e pergunta: Quem disse isso? Era assim que me sentia. Esperando que em algum momento você me dissesse que havia se enganado. Para mim, era difícil aceitar que depois de ter me desvendado, você continuasse me desejando. Não me refiro apenas ao desejo elementar de um corpo pelo outro. Talvez, fosse mais do que desejar, mas aceitar. Você me aceitava como eu era. Permiti que você ocupasse todos os meus espaços emocionais, os meus buracos da alma. Me concedi completamente, sem restrições, sem condições. Você perdeu uma grande oportunidade de experimentar o sabor da carne humana. Se tivesse me pedido um pedaço, eu teria dito que bastaria mastigar o que já estava em sua boca. Não era amor o que eu sentia. Era um estágio superior. Era devoção. Você era o meu culto secreto. Não porque devesse ser mantido desconhecido do mundo. Logo ele foi revelado. Mas porque eu sabia que não havia ninguém que pudesse adorá-la como eu. Você era meu santuário pagão. Quando nos olhávamos, sabíamos que estávamos pecando, participando de um círculo de cúmplices formado por duas pessoas que se queriam e que se bastavam. Posso ver seus olhos negros me fitando, sua boca deixando escapar um sorriso subliminar que me dizia o tempo todo: E agora? Quando planejamos morar no Marrocos, considerei fortemente a idéia. Havia algo de literatura beat em tudo isso. Combinava conosco. Será que terminaríamos nossas vidas lado a lado, septuagenários, mas ao invés de sentar em nossas respectivas cadeiras de balanço, nos espreguiçaríamos sobre aquelas enormes almofadas mouriscas, inalando haxixe de imensos narguilés? Em setembro, dois meses antes da viagem para Portugal, fumamos maconha naquele apartamento, no Itaim. Em algum momento fui para a lavanderia e esperei você me procurar. O fumo era forte. Não sentia culpa pelo que iria acontecer. E nós sabíamos que tinha que acontecer. Você veio e ficou atrás de mim. Meus sentidos estavam afiados aquela noite, principalmente por causa da sua saliva que impregnou o baseado com química ceresina. Conversamos sobre alguma coisa. A vista para o varal não era exatamente romântica, mas pouco importava, pois apesar de estar de costas para você, meu campo de visão foi absolutamente tomado pela memória recente de um rosto que eu queria para mim. Voltamos para a sala e alguém jazia no sofá. Hora de ir embora. Você me acompanhou até o elevador. No trajeto me perguntou: se eu te der uma chave, você aceita? Atordoado pelo movimento de seus lábios que se insinuavam como um relógio nas mãos de um hipnotizador, eu disse o sim mais afirmativo desde o nascimento da palavra falada. Nunca me ocorreu que pudesse ser uma oferta no sentido metafórico. Ao chegar ao elevador, apertei o botão. Olhei para você e nos beijamos pela primeira vez. Foi um beijo terno e selvagem ao mesmo tempo. Nesse momento, me entreguei a você. Já não era mais dono de minha vontade. Me tornei um zumbi a seu serviço. Entrei só no elevador. Quando a porta se abriu no térreo cambaleei até o carro. O perfume de seu suor ficou em mim. Fui me cheirando, tentando preservar aqueles odores o máximo que pudesse. A Lua Negra Que Me Orbita Antes de chegar ao carro, olhei para o céu e vi uma única estrela que conseguira burlar a vigilância das nuvens invejosas do meu amor. Não fiz nenhum pedido, apenas me lembrei de algo que me fora dito alguns meses antes por Augusto Damineli: quando olhamos para as estrelas, olhamos para o passado, pois o que vemos é o brilho de um astro, enviado centenas, milhares de anos atrás e, ainda que viaje à velocidade da luz, demora a chegar. Ontem também olhei para o céu e vi milhões de constelações, super-novas, vias-lácteas. Enquanto entortava meu pescoço e potencializava os rendimentos de minha quiroprática, fixei minha vista numa única estrela e imaginei estar olhando pra você. Em nenhum momento pensei no brilho dela como o passado.
Zoca Moraes
Uma bosta de texto assim como seu autor.
ResponderExcluirUm belo texto, assim como seu autor.
ResponderExcluirMas é claro que o autor é maior que a obra.
Obrigada por sua visita.