domingo, 30 de janeiro de 2011

Idade da Razão

"Fico só". Só, porém não mais livre do que antes. 
Dissera a mim mesmo na véspera: “Se ao menos Marcelle não existisse!" Mas era uma mentira. 
Ninguém entravou minha liberdade, foi a minha vida que a bebeu. Fechou a janela e voltou para o quarto. O perfume de Ivich ainda flutuava. Respirou-o e reviu aquele dia tumultuoso”. Pensou: 'Muito barulho à toa, por nada. Por nada'. Essa vida era–lhe dada à toa, ele não era nada e, no entanto, não mudaria mais. Estava formado. Tirou os sapatos e ficou imóvel, sentado no braço da poltrona, um sapato na mão. Sentia ainda no fundo da garganta o calor adocicado do rum. Bocejou. O dia estava acabado e acabava sua mocidade. Morais comprovadas já lhe ofereciam seus serviços. O epicurismo desabusado, a indulgência sorridente, a resignação, a seriedade de espírito, o estoicismo, tudo isso que permite apreciar, minuto por minuto, como bom conhecedor, uma vida malograda. Tirou o paletó, pôs–se a desfazer o nó da gravata. Repetia bocejando: – Não tem dúvida, não tem dúvida, estou na idade da razão. 
 JEAN-PAUL SARTRE 



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