segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Ética Quântica?

Sofrimento no Multiverso

O Projeto Abolicionista aborda como os (pós)humanos utilizarão a biotecnologia para abolir o sofrimento em toda a vida senciente. Infelizmente, esse resultado, que soa utópico a um primeiro olhar, pode não ser tão maravilhoso quanto aparenta. Suponha-se uma concepção de “universo em bloco” do espaço-tempo. O sofrimento que ocorre naquilo que ingenuamente chamamos de “passado” é tão real e inalterável quanto naquilo que chamamos de “presente”. Além disso, a mecânica quântica pós-Everett sugere que a vida darwiniana é abundante em outras partes do Multiverso. Na grande maioria dos ramos macroscópicos quase-clássicos em que a vida senciente surge, nenhuma criatura semelhante à forma hominídea evoluirá e será capaz de reescrever o seu próprio código fonte e extirpar a dor. Logo, o sofrimento “futuro” também persistirá indefinidamente. E ainda, se o cenário de inflação caótica eterna de Linde estiver correto, então o montante de sofrimento na realidade está aumentando exponencialmente. A abolição do sofrimento em qualquer universo compacto como o nosso é um fenômeno puramente local. Por isso, a única migalha de conforto que se pode retirar desta análise é que todos os cenários apresentados são especulativos. Estamos à beira de uma revolução reprodutiva de “bebês projetados”. Nas próximas décadas, futuros pais, rotineiramente, começarão a escolher a composição genética e as personalidades de seus futuros filhos. Os alelos alternativos mais desagradáveis e as combinações alélicas legadas pela seleção natural serão, progressivamente, eliminadas do pool gênico, à medida que a evolução deixar de ser efetivamente aleatória e “cega”. Nossa trajetória evolutiva como uma espécie será moldada, em vez disso, por agentes quase-racionais. No futuro, novos genes projetados e combinações alélicas serão escolhidos por deliberada antecipação de seus prováveis efeitos comportamentais. Quando os pais de amanhã optarem por não ter filhos depressivos ou ansiosos, a maioria desses futuros pais poderá não ter nenhum sistema ético grandioso em mente, muito menos o UN universal. Mas, à medida que a revolução reprodutiva se espalha pelo globo, o resultado coletivo dos atos de escolhas individuais dos pais pode ser similar aos frutos desse grandioso projeto utópico. A grande maioria dos pais desejará ter filhos superinteligentes, felizes, bonitos e afetuosos. Por sua vez, seus filhos superinteligentes, felizes, bonitos e carinhosos, presumivelmente, vão querer ter seus próprios filhos melhorados – e com um padrão de saúde mental muito mais alto. Assim, o ponto de partida natural de nosso bem-estar emocional será elevado geneticamente, tanto individualmente quanto, estatisticamente, para a espécie (pós-) humana como um todo em evolução “não natural”. Os humanos mais antigos presos ao que herdaram biologicamente poderão optar pela terapia genética somática enquanto a medicina personalizada amadurece. Entrementes, a pressão seletiva contra os traços adaptativos mais desagradáveis em nosso passado darwiniano será intensa. Os análogos funcionais sutis da dor e da ansiedade, sob a forma de gradientes de bem-estar reduzido, (provavelmente) serão mantidos para preservar a nossa sensibilidade informativa de estímulos nocivos e sustentar a nossa visão crítica; mas as texturas do sofrimento bruto, como as compreendemos hoje, podem ser banidas da história evolutiva. 

 Original Title: The Pinprick Argument: 
Negative Utilitarianism, broken symmetry and the fate of the world Author: 
David Pearce (2005)

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